IA não é inteligência, mas dedução automática, afirma Folha de S.Paulo

A Inteligência Artificial (IA) não deve ser confundida com inteligência genuína, mas sim compreendida como um sofisticado sistema de dedução automática. Essa é a tese central defendida pelo colunista Ricardo Araújo Pereira em artigo publicado na Folha de S.Paulo em 16 de maio de 2026. A visão, que ressoa com debates acadêmicos e éticos sobre a natureza da tecnologia, destaca os limites e a verdadeira funcionalidade dos sistemas de IA, que operam com base em padrões e probabilidades extraídos de vastos volumes de dados, sem a capacidade de compreensão ou consciência humana.
A Perspectiva da Folha de S.Paulo
No artigo intitulado “IA não é inteligência, é um sistema de dedução automática”, Ricardo Araújo Pereira critica a própria designação de “inteligência artificial”, argumentando que ela induz a falsas expectativas. Para o colunista, o que se observa na IA é, em rigor, um sistema de inferência automática. Ele utiliza a analogia do “papagaio estocástico”, termo popularizado pela linguista Emily Bender, para ilustrar que a IA combina elementos de forma a gerar respostas que parecem coerentes, mas sem uma compreensão real do conteúdo ou do contexto.
Essa perspectiva sublinha que, embora os sistemas de IA possam realizar tarefas complexas e gerar textos ou imagens impressionantes, eles o fazem por meio de algoritmos que identificam e replicam padrões em dados de treinamento, e não por um processo de raciocínio consciente ou criatividade intrínseca.
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IA: Dedução Automática vs. Inteligência Humana
A distinção entre dedução automática e inteligência humana é crucial para entender a natureza da IA. Enquanto a inteligência humana envolve consciência, emoções, intuição e a capacidade de compreender o mundo de forma abstrata, a IA opera por meio de cálculos probabilísticos e reconhecimento de padrões. A capacidade da IA de processar e analisar grandes volumes de dados a uma velocidade inatingível para o cérebro humano é inegável, mas essa vantagem reside na escala e na rapidez, não necessariamente na profundidade de “pensamento”.
Especialistas ressaltam que a IA não pensa, não sente e não raciocina por si só. O que existe é um modelo matemático que, ao ser alimentado com dados, aprende a identificar correlações e a produzir saídas que mimetizam a inteligência, mas sem a verdadeira compreensão semântica ou contextual.
Impactos e o Debate Social
A visão de que a IA é um sistema de dedução automática alimenta debates importantes sobre os impactos sociais e éticos da tecnologia. Ricardo Araújo Pereira menciona o crescente sentimento “ludita” – uma crítica à máquina e à delegação excessiva de tarefas humanas. Exemplos como o uso de ferramentas de IA para escrever mensagens amorosas ilustram a preocupação com a perda de autenticidade humana e a delegação de aspectos pessoais a algoritmos.
O debate público em torno da IA frequentemente oscila entre o entusiasmo com seu potencial transformador e a apreensão em relação aos seus riscos. Filósofos e cientistas, como Yuval Noah Harari e Marcelo Gleiser, alertam para a transferência sistemática de atividades mentais para máquinas, o que poderia levar ao enfraquecimento de competências humanas essenciais, como a formulação de argumentos complexos.
Outra preocupação central é a questão dos vieses. Como a IA é projetada por pessoas e treinada com base em conjuntos de dados que podem refletir preconceitos humanos, ela pode produzir resultados tendenciosos, gerar suposições falsas ou cometer os mesmos erros que seus criadores. A falta de transparência nos processos de tomada de decisão da IA dificulta a compreensão de como certas conclusões são alcançadas, gerando barreiras para a confiança.
Desdobramentos e o Cenário Atual da IA
O cenário da Inteligência Artificial no Brasil e no mundo é marcado por um intenso debate sobre regulação e governança. No Brasil, o Projeto de Lei 2338/2023, que visa disciplinar o uso da IA, está em análise tanto no Senado quanto na Câmara dos Deputados, com discussões focadas em ética, segurança digital e investimentos em educação e pesquisa.
Apesar do “hype” inicial em torno da IA generativa, alguns especialistas apontam para um arrefecimento das expectativas, com promessas de rápido desenvolvimento e ganhos de produtividade que não se concretizaram na proporção esperada, levando a incertezas e até a casos de “alucinações” (respostas imprecisas ou inventadas) por parte dos modelos. Essa realidade contrasta com visões mais utópicas, como a de Ray Kurzweil, que prevê a inevitabilidade da Inteligência Artificial Geral (AGI) superando a capacidade humana em um futuro próximo.
A própria Folha de S.Paulo está envolvida em um processo legal contra a OpenAI, buscando a destruição de modelos de IA treinados com seu conteúdo e maior transparência sobre a coleta e uso de dados. Este caso exemplifica as complexas questões de direitos autorais e uso de conteúdo que surgem com o avanço da IA, reforçando a necessidade de um entendimento mais claro sobre o que a tecnologia realmente é e como ela deve ser regulada e utilizada.
