IARAA: MST Lança IA para Socializar Saberes da Agroecologia no Campo

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em colaboração com a Marcha Mundial das Mulheres (MMM) e a Associação Internacional para Cooperação Popular (Baobab), lançou oficialmente a IARAA, a Inteligência Artificial da Reforma Agrária e Agroecologia. A plataforma, apresentada em São Paulo neste sábado, 16 de maio de 2026, visa democratizar o acesso ao conhecimento agroecológico e fortalecer a agricultura familiar no Brasil, contrapondo-se ao modelo tecnológico dominante do agronegócio.
O que é a IARAA?
A IARAA é uma ferramenta de inteligência artificial interativa, desenvolvida para ser um instrumento na luta pela massificação da agroecologia e pela soberania tecnológica e alimentar. Seu objetivo central é fornecer informações e soluções sobre práticas de cultivo e organização produtiva para trabalhadores rurais, assentados e agricultores familiares. A iniciativa surgiu da demanda dos movimentos do campo por tecnologias adaptadas às suas necessidades, diferente das soluções focadas na monocultura e no agronegócio em larga escala.
A concepção e o desenvolvimento da IARAA são fruto de um esforço coletivo, com uma base de dados própria, construída e validada por meio de livros, artigos e documentos técnicos produzidos por agricultores, universidades, institutos de pesquisa e movimentos populares entre 1964 e 2026. Isso a diferencia de IAs generalistas que utilizam dados aleatórios da internet.
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Funcionalidades e Modos de Interação
A plataforma IARAA opera em três modos distintos, cada um desenhado para atender a diferentes necessidades dos usuários no campo:
- Semeadura: Oferece respostas curtas e diretas, ideal para quem está no campo e busca soluções práticas para o cotidiano de cultivo.
- Mutirão: Destina-se à assistência técnica e ao compartilhamento de metodologias para trabalhos em grupo, com respostas mais detalhadas e focadas em metodologias participativas.
- Quintal Produtivo: Voltado para estudo, pesquisa e aprofundamento teórico, fornecendo relatórios extensos, conceitos e explicitando as fontes das informações.
A ferramenta foi treinada para dialogar de forma específica com diferentes públicos, como famílias assentadas, técnicos agrícolas e dirigentes de cooperativas, abordando desde a implementação de sistemas agroflorestais até análises aprofundadas sobre agroecologia.
Contexto e Soberania Tecnológica
A IARAA representa uma resposta dos movimentos populares ao avanço das big techs no campo, que, em parceria com o agronegócio, utilizam tecnologias para aprofundar a concentração fundiária e a captura de dados, muitas vezes impulsionando a venda de agrotóxicos e o endividamento. O projeto se posiciona no sentido oposto, buscando construir uma política própria de proteção de dados para os trabalhadores do campo.
O desenvolvimento da IARAA contou com tecnologia chinesa, utilizando modelos de linguagem de código aberto como o DeepSeek V4. Essa parceria foi inspirada no modelo chinês de desenvolvimento tecnológico, que subordina a tecnologia ao benefício da população, promovendo inclusão e soberania nacional, em contraste com o paradigma ocidental focado na acumulação privada e no lucro. João Pedro Stédile, da direção nacional do MST, classificou a iniciativa como um instrumento a serviço da classe trabalhadora para “revolucionar nossos métodos de fazer política e acelerar a destruição do capitalismo”.
Lançamento e Desdobramentos
O lançamento oficial da versão beta da IARAA ocorreu na Livraria Expressão Popular, em São Paulo, e contou com a presença de lideranças do MST, da Marcha Mundial das Mulheres e da Baobab. O evento seguiu a apresentação do livro “Além do Vale do Silício: Inteligência Artificial com Características Chinesas”, reforçando a inspiração na abordagem tecnológica do país asiático. Uma etapa anterior de lançamento do projeto havia ocorrido em janeiro de 2026, durante o 14º Encontro Nacional do MST em Salvador.
A IARAA é vista como um marco na soberania digital e técnica, com potencial não apenas para desenvolver uma ferramenta útil, mas também para demonstrar um modelo alternativo de desenvolvimento tecnológico, soberano e focado nas necessidades das pessoas. A expectativa é que a plataforma continue a ser aprimorada, com planos futuros de incluir funcionalidades de áudio para ampliar ainda mais o acesso dos trabalhadores rurais.
