Ian McEwan: IA Não Ameaça Literatura por Falta de Dor e Sexo

O renomado escritor britânico Ian McEwan, aos 77 anos, afirmou em entrevista à Folha de S.Paulo que a inteligência artificial (IA) não representa uma ameaça genuína à literatura, pois carece de experiências humanas fundamentais como a capacidade de sentir dor e de ter relações sexuais. A declaração, publicada em 25 de maio de 2026, reflete a visão do autor de que a essência da criação literária reside na vivência concreta e nas emoções humanas, algo inatingível para as máquinas.
McEwan, conhecido por obras como ‘Reparação’ e ‘Amsterdam’, tem se dedicado a explorar o futuro da humanidade e as implicações da tecnologia em sua mais recente produção. Sua perspectiva surge no contexto do lançamento de seu novo romance, ‘O Que Podemos Saber’, que aborda um cenário pós-catástrofe climática e as transformações sociais e tecnológicas.
A Essência da Experiência Humana na Literatura
Para McEwan, a literatura é intrinsecamente ligada à experiência humana, que inclui a complexidade das emoções, as ambiguidades e o sofrimento. Ele argumenta que, embora a inteligência artificial generativa possa replicar estruturas narrativas e padrões linguísticos, ela é incapaz de acessar a profundidade do que nasce da vivência concreta das pessoas. “IA não sente dor, então não ameaça a literatura”, declarou o escritor, enfatizando que as máquinas não podem verdadeiramente compreender o amor, a alegria ou o luto.
O autor britânico ressalta que a ausência de um corpo e de experiências sensoriais limita a capacidade da IA de criar obras que ressoem com a condição humana. Uma máquina, segundo ele, não pode se apaixonar, adoecer ou quebrar uma perna; ela apenas “raspa a internet” e “finge” essas coisas, oferecendo uma versão de segunda mão da realidade.
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‘O Que Podemos Saber’: Um Olhar para o Futuro
A entrevista de McEwan coincide com a publicação de seu romance ‘O Que Podemos Saber’, lançado pela Companhia das Letras. A obra transporta o leitor para o ano de 2119, em um mundo drasticamente alterado por uma grande inundação e crises climáticas que os personagens do futuro denominam “Desarranjo”. O protagonista, Tom, é um pesquisador de história da literatura especializado no período entre 1990 e 2030, antes dos grandes desastres.
O romance reflete a preocupação de McEwan com o impacto das transformações tecnológicas e ambientais na vida cotidiana e na própria concepção de humanidade. Ele sempre demonstrou interesse em observar como a ciência e a tecnologia moldam a sociedade e a ética, tema recorrente em sua vasta obra.
AI e Criatividade: Um Debate Contínuo
A posição de Ian McEwan sobre a IA e a literatura não é nova em sua trajetória. O escritor já abordou a inteligência artificial em seu romance ‘Máquinas Como Eu’ (2019), que explorava dilemas morais e éticos da criação de robôs humanoides. Naquela obra, ele já levantava questões sobre a capacidade das máquinas de tomar decisões morais e de se equiparar à complexidade humana.
Em outras ocasiões, McEwan também refletiu sobre a necessidade de solidão e espaço para a verdadeira criatividade, contrastando-a com a “padronização” do trabalho criativo na era digital, influenciada por dispositivos como smartphones. Ele argumenta que a criatividade necessita de um “silêncio” que a tecnologia muitas vezes suprime.
Apesar de reconhecer os avanços da IA generativa, McEwan mantém que a literatura cumpre uma função essencial de registrar emoções, ambiguidades e experiências humanas que não podem ser plenamente reproduzidas por sistemas artificiais. A capacidade da IA de gerar textos “plausíveis”, mas “ligeiramente maçantes” e sem um verdadeiro “sentido de direção”, é vista como uma limitação fundamental, uma vez que a máquina não “caiu de amor” ou “teve câncer”.
Desdobramentos e o Futuro da Narrativa
A discussão levantada por McEwan se insere em um debate global mais amplo sobre o papel da inteligência artificial nas artes e na sociedade. Enquanto alguns veem a IA como uma ferramenta para expandir a criatividade, outros, como McEwan, apontam para a insubstituibilidade da experiência humana encarnada. A resiliência da literatura, segundo ele, reside precisamente em sua capacidade de explorar a complexidade da condição humana, algo que permanece inalterado ao longo dos séculos e que a IA, por sua natureza, não pode replicar.
A entrevista do autor britânico serve como um lembrete de que, mesmo em um futuro cada vez mais dominado pela tecnologia, a busca por narrativas que expressem a dor, o amor, o luto e a alegria – as verdadeiras marcas da existência – continuará sendo um pilar da literatura, mantendo-a como um domínio essencialmente humano.
