Liderança ignora evolução da IA, revela estudo do Valor Econômico

A alta liderança nas empresas brasileiras tem demonstrado um baixo envolvimento com a evolução da Inteligência Artificial (IA), concentrando a gestão de projetos e a governança de dados em poucas diretorias. Essa constatação, revelada por um estudo recente veiculado pelo Valor Econômico, aponta para um cenário onde a falta de engajamento estratégico no topo da hierarquia corporativa se torna um obstáculo significativo para o avanço e a maturidade da IA no ambiente de negócios nacional.
O levantamento, que incluiu 40 empresas no Brasil, a maioria com mais de quatro mil funcionários, indicou que 57,5% delas centralizam as atividades ligadas à inteligência artificial em apenas uma diretoria. Essa abordagem restrita pode comprometer a adoção efetiva da tecnologia, reduzir o engajamento das equipes e impedir que a IA gere valor estratégico real para o negócio.
A Desconexão entre Liderança e Potencial da IA
Apesar da IA ter deixado de ser apenas uma ferramenta para se tornar um pilar estratégico, a forma como a liderança conduz essa transformação é crucial. Relatórios globais, como o da McKinsey em 2025, já sinalizavam que, embora quase todas as organizações pesquisadas estivessem investindo em IA, apenas 1% considerava ter alcançado maturidade na sua adoção. O principal impedimento, segundo o estudo, não reside na disposição dos colaboradores em usar a tecnologia, mas na capacidade dos líderes de guiar sua implementação de forma eficaz.
A falta de adesão da liderança é frequentemente apontada como uma das maiores causas de falha em iniciativas de IA. Executivos C-level, diretores e proprietários, embora sejam os maiores beneficiários potenciais dos sistemas de IA e os principais facilitadores, muitas vezes atuam como usuários secundários. Essa distância impede a criação de uma cultura de inovação e o aproveitamento do potencial transformador da tecnologia.
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Impactos da Baixa Participação na Estratégia
Os desafios gerados pela desconexão da alta liderança com a IA são múltiplos e impactam diretamente a competitividade e a capacidade de inovação das empresas:
- Comprometimento da Adoção: A falta de exemplo e incentivo da liderança no uso diário da IA faz com que a percepção de importância diminua entre as equipes, dificultando a criação de uma cultura inovadora.
- Foco em Tarefas Simples: A IA é frequentemente utilizada apenas para automação de tarefas básicas, como e-mails ou pesquisas, perdendo a oportunidade de ser aplicada em atividades que realmente aumentem a produtividade e melhorem a tomada de decisão estratégica.
- Risco de Investimento Ineficaz: Empresas que adotam a IA sem uma estratégia clara correm o risco de investir tempo e recursos sem resolver problemas reais ou gerar impacto relevante para o negócio.
- Perda de Julgamento Humano: Uma pesquisa da McKinsey, com mais de 10 mil executivos, destacou que o fator que mais diferencia empresas adaptáveis não é o domínio técnico da IA, mas a capacidade de julgamento da liderança. A automação isolada, sem o pensamento crítico humano, pode levar a decisões de baixa qualidade e até à recontratação de profissionais dispensados.
O Papel Essencial da Liderança na Era da IA
Para reverter esse quadro, especialistas e estudos apontam para a necessidade de uma mudança de mentalidade e ação por parte da alta liderança. A IA deve ser vista como um meio para alcançar resultados, e não um objetivo em si.
Competências Cruciais para o Líder de 2026
Relatórios como o Future of Jobs Report 2025, do World Economic Forum (WEF), e o Talent Barometer 2025, da SKEMA Business School em parceria com a EY, sublinham a importância de competências específicas para os líderes na era da IA:
- Pensamento Analítico: Capacidade de interpretar dados gerados por algoritmos e tomar decisões informadas.
- Governança e Ética: Assegurar a transparência e a responsabilidade no uso das tecnologias de IA, mitigando riscos éticos e de dados.
- Liderança e Influência Social: Conduzir equipes em um cenário de mudanças constantes, promovendo a colaboração entre pessoas e tecnologia.
- Delegação Estratégica: Saber quando delegar decisões à IA e quando a intervenção humana é indispensável.
- Visão de Ruptura: Adotar uma perspectiva que vai além da automação de rotinas, buscando reinventar modelos de negócios com a IA.
A Necessidade de um Envolvimento Ativo
A “realfabetização” em IA para o C-Level é inegociável. Reynaldo Gama, CEO da Ânima Empresas, destaca que a requalificação em IA não pode ser delegada, pois o próprio CEO está vulnerável e precisa experimentar a tecnologia. A neuroliderança, que aplica conhecimentos da neurociência à gestão, sugere que ambientes de trabalho que promovem autonomia, confiança e reconhecimento estimulam o melhor desempenho cerebral, o que é vital na integração da IA sem gerar receios de substituição ou isolamento.
A inteligência artificial pode atuar como um “conselheiro” estratégico para os líderes, oferecendo orientação e desdobramentos futuros, mas seu valor só é plenamente realizado quando há uma visão clara de onde a IA pode gerar impacto distintivo e quando existe talento capaz de operacionalizá-la.
Desdobramentos e Perspectivas Futuras
O cenário atual exige que as empresas e seus líderes vejam a IA não apenas como uma questão tecnológica, mas como uma transformação cultural e organizacional. O investimento global em TI, com destaque para a IA, deve atingir US$ 8,6 trilhões em 2026, com gastos mundiais em IA projetados em US$ 2,5 trilhões, um aumento de 44% em relação a 2025. Para que o Brasil se beneficie plenamente desse avanço, o engajamento da alta liderança é fundamental. É preciso desaprender padrões antigos e sustentar novas formas de agir em ambientes complexos, garantindo que a IA seja uma aliada na aprendizagem e na tomada de decisões estratégicas, e não apenas uma ferramenta técnica isolada.
