Pax lança plataforma policial com IA no Brasil e capta US$ 40 milhões

A startup brasileira Pax, anteriormente conhecida como Paladium, anunciou o lançamento de sua plataforma de inteligência artificial (IA) destinada à segurança pública, um marco no combate à criminalidade no país. O anúncio foi acompanhado pela captação de uma rodada de investimento seed no valor de US$ 40 milhões, liderada pelos fundos Greenoaks e Benchmark, configurando um dos maiores aportes iniciais na América Latina e o maior no Brasil para este estágio.
A tecnologia da Pax visa transformar a investigação criminal, conectando e analisando grandes volumes de dados fragmentados para gerar inteligência acionável em tempo real, auxiliando as forças policiais a resolver crimes de forma mais rápida e eficiente.
A Plataforma de IA da Pax: Um “ChatGPT para a Polícia”
A plataforma da Pax integra diversas fontes de dados, como câmeras de vigilância, registros policiais e bancos de dados criminais, criando um sistema unificado de inteligência. Utilizando algoritmos avançados de inteligência artificial, a ferramenta é capaz de analisar imagens de vigilância para detectar pessoas e veículos, reconstruir trajetos e identificar possíveis pistas em questão de minutos.
David Peixoto, fundador e CEO da Pax, descreveu a solução como um “ChatGPT para a polícia”, destacando a capacidade dos investigadores de inserir informações básicas sobre um crime – como a cor de um veículo ou a descrição da roupa de um suspeito – para pesquisar imagens, mapear deslocamentos e cruzar com ocorrências anteriores. Essa funcionalidade otimiza o tempo dos policiais, que tradicionalmente gastam horas ou dias peneirando gravações e dados manualmente, permitindo que se concentrem na tomada de decisões e na investigação propriamente dita.
A Pax foi construída com a premissa de que a resolução de crimes é fundamentalmente um desafio de dados. A empresa busca fornecer a infraestrutura necessária para conectar e tornar essas informações úteis em tempo real, combatendo a impunidade que muitas vezes prevalece devido à falta de coordenação de dados.
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Impacto Comprovado na Segurança Pública Brasileira
Antes de seu lançamento público sob a marca Pax, a empresa operou por cerca de dois anos como Paladium, validando sua tecnologia e impacto em campo. Em sua primeira implementação em larga escala, na cidade de Luziânia, em Goiás, a plataforma demonstrou resultados significativos. Em seis meses, as forças de segurança que utilizaram a tecnologia registraram uma redução de 27% nos crimes violentos, dobraram a efetividade policial e elevaram em 59% a sensação de segurança da população.
Ao longo do último ano, a plataforma de investigação assistida por IA da Pax já contribuiu para o esclarecimento de mais de 2.000 casos criminais em mais de 30 cidades brasileiras, incluindo homicídios, roubos a mão armada e furtos de veículos.
Contexto da Criminalidade no Brasil
O lançamento da Pax ocorre em um cenário de alta complexidade para a segurança pública brasileira. Dados do Instituto Sou da Paz e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) indicam que a violência custa à América Latina cerca de 3,5% do PIB regional, aproximadamente US$ 241 bilhões anualmente. No Brasil, a impunidade é um desafio crítico: dos aproximadamente 40 mil homicídios registrados por ano, menos de 4 em cada 10 casos são solucionados, contrastando com a média global de 63% e europeia de 92%. Além disso, crimes como roubo de celulares afetam cerca de 10% da população anualmente, com uma média de dois aparelhos roubados por minuto. A Pax surge como uma ferramenta para combater essa lacuna na investigação e elucidação de crimes.
Financiamento e Equipe de Alto Nível
A rodada de investimento seed de US$ 40 milhões é um reconhecimento do potencial da Pax em transformar a segurança pública. Os fundos Greenoaks e Benchmark são conhecidos por apoiar empresas de tecnologia de alto impacto. A equipe por trás da Pax é composta por engenheiros e empreendedores brasileiros com formação em instituições renomadas como Stanford, MIT, Harvard, ITA e USP, e experiência em grandes empresas de tecnologia como Google, Meta, Uber e Nubank.
Desdobramentos e Desafios Éticos
Apesar do sucesso inicial e do aporte financeiro, a expansão da IA na segurança pública não está isenta de desafios. Recentemente, uma parceria para o programa “IA Contra o Crime” envolvendo a GoTech (empresa pública de Goiás) e a Pax foi suspensa pela Justiça de Goiás. A decisão judicial atendeu a um pedido do Ministério Público do Estado de Goiás (MP-GO), que questionou a contratação direta da GoTech sem licitação e a adequação de sua função para o desenvolvimento e operação de sistemas de videomonitoramento com IA.
O MP-GO argumentou que a GoTech foi criada para serviços de telecomunicações, não especificamente para soluções de IA em segurança, e que a pesquisa de preços para justificar o valor do contrato não foi suficientemente detalhada. A Pax, por sua vez, defendeu que a parceria segue a legislação brasileira (Leis nº 13.303/2016 e 14.133/2021) e reproduz a estrutura de colaboração adotada por outras grandes empresas de tecnologia com o setor público. A empresa destacou que, em Goiás, sua tecnologia já auxiliou na resolução de mais de 1.400 casos com um orçamento e número de câmeras significativamente menores que programas equivalentes, projetando a elucidação de mais de 10.000 crimes até o final do ano com a expansão.
O uso de inteligência artificial em segurança pública também levanta importantes debates éticos e jurídicos. Especialistas e pesquisadores, como os da Universidade Federal Fluminense (UFF) e do Data Privacy Brasil, alertam para questões como a proteção de dados, o equilíbrio entre segurança e direitos fundamentais, e o risco de vieses algorítmicos. A Portaria nº 961/2025 já estabelece que a IA não pode ser utilizada para vigilância massiva sem critérios objetivos e legalmente definidos, reforçando a necessidade de transparência, responsabilidade e respeito aos direitos humanos no desenvolvimento e aplicação dessas tecnologias.
A Pax afirma que todas as consultas e acessos em sua plataforma são registrados e atribuídos a operadores específicos, visando aumentar a transparência e a auditabilidade. A empresa se posiciona como parte da solução para um problema histórico de criminalidade, acreditando que a tecnologia pode tornar o Brasil um lugar mais seguro.
