Peter Jackson Vê IA como Ferramenta no Cinema, Mas Alerta para Direitos

Cannes, França – O renomado cineasta Peter Jackson, diretor da aclamada trilogia O Senhor dos Anéis, declarou no Festival de Cannes de 2026 que não vê a inteligência artificial (IA) como uma ameaça inerente ao cinema, mas sim como uma ferramenta. Contudo, ele enfatizou a necessidade crítica de proteger os direitos dos atores contra o uso não autorizado de suas imagens.
As declarações foram feitas durante uma masterclass no festival, um dia após Jackson receber a Palma de Ouro honorária, e inserem-se no intenso debate sobre o futuro da IA na indústria cinematográfica.
IA: Uma Ferramenta, Não uma Ameaça Inevitável
Para Jackson, a IA no cinema não é fundamentalmente diferente de outros efeitos especiais que a indústria tem adotado ao longo das décadas. “Para mim, é apenas um efeito especial. Não é diferente de outros efeitos especiais”, afirmou o diretor, conforme amplamente noticiado. Ele argumentou que a qualidade do resultado final dependerá sempre da imaginação e originalidade do criador que a utiliza, e não da tecnologia em si.
O cineasta, conhecido por revolucionar o uso de efeitos visuais em suas produções, como a criação do personagem Gollum, sugeriu que a IA pode ser mais um recurso para expandir as possibilidades criativas. Apesar dessa visão otimista sobre o potencial da IA como ferramenta, Jackson fez uma ressalva impactante ao mencionar que a IA, em um sentido mais amplo, “vai destruir o mundo”, mas rapidamente focou sua análise em seu uso específico na produção cinematográfica.
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Proteção de Direitos e o Risco de Uso Indevido
A principal preocupação de Peter Jackson reside na ética e na legalidade do uso da IA. Ele sublinhou que é “absolutamente crítico” proteger os direitos dos atores para evitar que suas semelhanças sejam roubadas e utilizadas em filmes sem permissão ou compensação adequada.
“Se você está fazendo uma duplicata por IA de alguém, como Indiana Jones ou qualquer outro, desde que os direitos tenham sido licenciados pela pessoa retratada, eu não vejo problema”, explicou Jackson. “A questão é quando a imagem das pessoas é roubada e usada indevidamente.” Essa posição alinha-se com as discussões recentes em Hollywood sobre a necessidade de regulamentação e acordos claros para o uso de IA, especialmente no que tange à replicação digital de artistas.
O Impacto na Captura de Movimento e Premiações
Um ponto central na fala de Jackson foi o impacto negativo que o atual debate em torno da IA pode ter sobre o reconhecimento de performances em captura de movimento. Ele expressou particular lamento pela situação de Andy Serkis, ator que deu vida a Gollum em O Senhor dos Anéis.
Jackson argumentou que a performance de Serkis como Gollum foi 100% humana, uma atuação gerada por um ator e não por inteligência artificial, apesar do uso da tecnologia de captura de movimento. Ele acredita que a ansiedade e a desinformação em torno da IA têm prejudicado a percepção dessas atuações, tornando “praticamente impossível” que personagens como Gollum recebam o devido reconhecimento em grandes premiações, como o Oscar.
“Muitas pessoas estão preocupadas com IA atualmente… Acho que um personagem como Gollum ou qualquer personagem gerado digitalmente não tem chance de ganhar prêmios”, disse Jackson. “O que é um pouco injusto, especialmente no caso do Andy, em que não se trata de uma atuação gerada por IA, mas de uma performance humana do começo ao fim”.
Desdobramentos e o Futuro da Franquia
As declarações de Peter Jackson em Cannes reverberam em um momento crucial para a indústria, que busca equilibrar inovação tecnológica com a proteção dos direitos dos trabalhadores. A discussão sobre IA é uma das mais proeminentes no festival deste ano, com cineastas e estúdios buscando um caminho para integrar a tecnologia de forma ética e sustentável.
Curiosamente, Jackson também aproveitou a ocasião para comentar sobre o próximo filme da franquia O Senhor dos Anéis, intitulado A Caçada por Gollum. Ele confirmou que não dirigirá o projeto, que ficará a cargo de Andy Serkis, que também retornará ao papel de Gollum. Jackson explicou que Serkis, como ninguém mais, compreende a psicologia e o vício do personagem, tornando-o a escolha ideal para a direção.
