Professor da USP: IA ainda está na ‘pré-história’ e revolução real se aproxima

Apesar do avanço exponencial e da popularização de ferramentas como ChatGPT e Gemini, a inteligência artificial (IA) ainda se encontra em seus estágios iniciais, uma verdadeira “pré-história” de seu potencial transformador. A avaliação é de Alexandre Chiavegatto Filho, professor de inteligência artificial da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), que ressalta a importância de uma perspectiva histórica para compreender o verdadeiro impacto que a tecnologia ainda trará.
Em diversas ocasiões, incluindo declarações recentes, o especialista da USP tem enfatizado que a percepção pública atual sobre a IA muitas vezes superestima o estágio de desenvolvimento em que nos encontramos, focando no que a tecnologia já é capaz de fazer, em vez de seu potencial futuro. Para Chiavegatto Filho, o que vemos hoje é apenas o “estágio primitivo” de uma evolução que promete ser ainda mais disruptiva.
A Pré-História da IA: Limitações Atuais e a Percepção Pública
O professor Alexandre Chiavegatto Filho argumenta que a euforia em torno da inteligência artificial generativa, que ganhou os holofotes a partir do final de 2022, esconde uma realidade: a maioria das aplicações atuais da IA se resume a um “reempacotamento” ou reorganização de conhecimento já existente. Isso inclui tarefas como resumir textos, traduzir idiomas, condensar planilhas e criar imagens a partir de descrições. Embora essas funcionalidades sejam impressionantes e úteis, elas ainda não representam o salto qualitativo que a IA pode oferecer.
A arquitetura que impulsionou o recente salto da IA começou a ser desenhada por volta de 2017. No entanto, a velocidade de aprimoramento é tão vertiginosa que se torna quase impossível prever com precisão onde estaremos em apenas cinco anos. Essa imprevisibilidade, segundo Chiavegatto Filho, é um dos motivos pelos quais o debate público precisa de uma visão de longo prazo, evitando julgar o potencial da IA apenas pelo que ela realiza hoje.
Outro ponto levantado pelo professor é a “fronteira irregular” da IA. Enquanto os sistemas mais recentes demonstram capacidades extraordinárias em áreas como matemática, raciocínio lógico e resolução de problemas técnicos, eles ainda apresentam limitações significativas em outras tarefas. Por exemplo, um algoritmo pode ser excelente em cálculos complexos, mas falhar ao tentar criar um romance com enredo complexo e profundidade emocional. Essa inconsistência é um indicativo de que a tecnologia ainda não atingiu sua plena maturidade.
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O Verdadeiro Salto: Geração de Conhecimento Inédito
Para Chiavegatto Filho, o verdadeiro “divisor de águas” da inteligência artificial ocorrerá quando ela transcender a função de organizar informações para se tornar uma geradora de conhecimento inédito. Esse salto é esperado em áreas cruciais como a saúde e a ciência básica, onde a IA poderá identificar padrões em dados clínicos que seriam imperceptíveis para médicos humanos ou prever a eficácia de novos medicamentos antes mesmo de testes laboratoriais.
O professor da USP chega a prever que, ainda em 2026 ou no ano seguinte, um algoritmo será capaz de realizar uma descoberta científica genuína. Essa capacidade de criar conhecimento novo, em vez de apenas processar o existente, é o que definirá a próxima era da inteligência artificial e inaugurará sua fase de “revolução real”.
No contexto da saúde, o Laboratório de Big Data e Análise Preditiva em Saúde (LABDAPS) da USP, dirigido por Chiavegatto Filho, tem sido pioneiro em projetos de IA financiados por importantes instituições. O foco é a melhoria das decisões em saúde, aproveitando a diversidade dos dados brasileiros para treinar algoritmos que possam, por exemplo, identificar o risco de óbito em bebês no primeiro mês de vida. A riqueza e a diversidade dos dados do Brasil são consideradas fundamentais para que esses algoritmos aprendam sobre a realidade do mundo e possam auxiliar em decisões globais, inclusive em países em desenvolvimento.
Perspectivas da USP sobre o Futuro da IA
A Universidade de São Paulo tem sido um centro efervescente de discussões e pesquisas sobre inteligência artificial, com diversos professores e centros abordando diferentes facetas da tecnologia.
Desafios Éticos e Sociais
Marcelo Finger, professor titular da USP e pesquisador principal do Centro de Inteligência Artificial (C4AI), destaca os riscos estruturais do avanço acelerado da IA, especialmente a forte dependência de um pequeno número de fornecedores globais. Ele defende que o Brasil deve focar na construção de arcabouços e princípios para a tecnologia, em vez de tentar prever seu desenvolvimento, para garantir a soberania e evitar a obsolescência de planos tecnológicos.
Glauco Arbix, em suas análises para o Jornal da USP e Rádio USP, frequentemente aborda os desafios da IA em um cenário de tensões globais. Ele alerta para o potencial da tecnologia em gerar desordem social, contribuir para o declínio da democracia e causar a destruição de postos de trabalho, especialmente entre os mais vulneráveis. Arbix também critica a concentração de poder tecnológico em poucos países e empresas, como evidenciado pelo sistema Mythos da Anthropic, que expõe falhas globais de segurança cibernética e tem acesso restrito.
A questão da ética e da subjetividade humana frente à IA também é um tema de debate. Jorge Forbes, psiquiatra e doutor pela USP, analisa os efeitos da inteligência artificial na subjetividade humana. Ele argumenta que o verdadeiro risco não é a máquina se tornar humana, mas sim o ser humano se acomodar a relações sem alteridade, perdendo a capacidade de interação complexa e emocional que define a experiência humana. Para Forbes, a questão central não é se a IA tem emoções, mas o que está em jogo quando ela as simula e o laço afetivo que pode ser criado por essa simulação.
Iniciativas e Parcerias
Reconhecendo a necessidade de um desenvolvimento responsável, a USP lançou, em novembro de 2025, a Cátedra Inteligência Artificial Responsável, em parceria com o Google. Liderada pelo professor Carlos Américo Pacheco, ex-reitor do ITA, a iniciativa é um centro permanente de pesquisa dedicado a explorar não apenas o funcionamento da IA, mas também a garantir seu uso ético, seguro e com impacto social positivo. A cátedra visa estudar a regulação da IA, os direitos autorais, a privacidade de dados e como a tecnologia pode ser usada para melhorar a vida das pessoas por meio de políticas públicas, além de formar profissionais na área.
Fábio Cozman, professor da Escola Politécnica (Poli) da USP e diretor do Centro de Inteligência Artificial (C4AI), também tem contribuído para a compreensão da IA, explicando suas capacidades de representar conhecimento, raciocinar, tomar decisões, aprender e interagir através de diferentes mídias. O C4AI é um dos importantes polos de pesquisa em IA no país, com foco em diversas aplicações e desenvolvimentos.
O Que Acontece Agora: Um Futuro em Construção
A visão do professor Alexandre Chiavegatto Filho de que estamos na “pré-história” da inteligência artificial serve como um alerta e um convite à reflexão. O entusiasmo com as ferramentas atuais é justificado pelos avanços, mas a verdadeira revolução ainda está por vir, impulsionada pela capacidade da IA de gerar conhecimento inédito e transformar fundamentalmente setores como saúde, ciência e educação.
Para o Brasil, a oportunidade de contribuir para essa nova fase da IA é imensa, especialmente com a riqueza de seus dados e a diversidade de sua população. Investimentos em pesquisa, formação de talentos e o estabelecimento de arcabouços éticos e regulatórios, como a Cátedra de IA Responsável da USP, são passos cruciais para garantir que o país não apenas consuma, mas também lidere o desenvolvimento de uma inteligência artificial que seja benéfica para a sociedade. A compreensão das limitações atuais e a antecipação dos desafios futuros são essenciais para navegar essa era de transformações sem precedentes.
