STJ: IA revoluciona admissibilidade recursal, mas exige cautela

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) tem se debruçado sobre a crescente integração da Inteligência Artificial (IA) na análise de admissibilidade recursal, um tema central na microssérie especial do programa Entender Direito, lançada em julho de 2026. A iniciativa visa discutir os desafios, avanços e perspectivas dessa tecnologia no Judiciário brasileiro, que busca otimizar a celeridade processual sem comprometer a segurança jurídica e a atuação humana.
Os debates, originados de encontros nacionais promovidos pelo STJ ao longo de 2025 e no primeiro semestre de 2026, contam com a participação de especialistas como a juíza Beatriz Fruet de Moraes e o analista judiciário Diogo Rodrigues Verneque. Eles analisam o papel do Tribunal da Cidadania, os desafios da admissibilidade, a valorização dos precedentes e o uso da IA generativa, além da integração tecnológica entre os tribunais.
Avanços da Inteligência Artificial no STJ
O STJ tem investido significativamente em ferramentas de IA para aprimorar a gestão processual. Em fevereiro de 2025, foi implementado o STJ Logos, uma ferramenta desenvolvida internamente que auxilia na análise e elaboração de conteúdos judiciais. O Logos permite que magistrados solicitem análises e resumos de documentos por comandos simples, gerando relatórios automatizados para decisões monocráticas e acórdãos, e analisando a admissibilidade de Agravos em Recurso Especial (AREsps), a classe processual de maior volume no tribunal.
Outros sistemas de IA, como o Sócrates e o Athos, também desempenham papéis cruciais. O Sócrates identifica demandas repetitivas e grupos de processos com acórdãos semelhantes, otimizando a gestão de recursos repetitivos. Já o Athos, ainda em desenvolvimento, busca auxiliar os tribunais na análise de admissibilidade de recursos especiais e extraordinários, integrando iniciativas do STF e STJ para maximizar resultados e reduzir custos. A IA também tem sido empregada na geração automatizada de espelhos de acórdãos da Terceira Seção e no aprimoramento do sistema de precedentes.
A consolidação da IA e automação na triagem e classificação de processos é uma prática crescente, impulsionando a eficiência e celeridade na prestação jurisdicional. O uso dessas tecnologias reflete uma tendência de modernização que busca absorver o volume crescente de ações judiciais e reduzir custos.
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Desafios e Riscos da IA no Judiciário
Apesar dos avanços, a implementação da IA no Judiciário brasileiro enfrenta desafios consideráveis. Um dos pontos mais críticos é a necessidade de validação humana e supervisão, especialmente quando se trata de IA generativa usada como prova penal. Uma decisão da Quinta Turma do STJ, abordada no podcast STJ No Seu Dia em junho de 2026, ressaltou a inadmissibilidade de relatórios produzidos por IA sem essa validação, exigindo confiabilidade técnica e legalidade na produção de provas.
O fenômeno da “alucinação” da IA, onde sistemas geram informações plausíveis, mas falsas, representa um risco significativo. Em maio de 2026, o STJ advertiu advogados sobre esse perigo, após um caso em que um Habeas Corpus continha 16 decisões judiciais errôneas, fabricadas por um sistema de IA. O ministro Rogerio Schietti Cruz destacou que tal falha tecnológica afeta a busca por dados precisos e acende um alerta sobre as implicações éticas e a responsabilidade profissional dos advogados em conferir as petições.
A preocupação com a desumanização da jurisdição é latente. O debate se estende sobre até que ponto a busca por eficiência pode converter argumentos jurídicos em meros metadados de triagem, esvaziando a substância do contraditório, da ampla defesa e da oralidade. As emendas regimentais 51/26 e 53/26 do STJ, que tratam da sustentação oral, reacendem essa discussão, enfatizando que a tecnologia deve organizar fluxos e reduzir custos, mas não substituir as garantias que legitimam a decisão judicial.
Ademais, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) tem diretrizes que exigem que o desenvolvimento e implantação da IA sejam compatíveis com os Direitos Fundamentais, observando critérios éticos de transparência, previsibilidade, possibilidade de auditoria, imparcialidade e justiça substancial.
Perspectivas e Regulamentação
O futuro da IA no Judiciário brasileiro aponta para uma regulamentação mais robusta. O Projeto de Lei 2338, inspirado na Regulação Europeia de Inteligência Artificial, está em debate na Câmara dos Deputados e tem grandes chances de ser aprovado ainda em 2026, conforme o ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, do STJ. Ele enfatiza que a IA é uma realidade inegável que deve ser abraçada e usada corretamente para ampliar as capacidades de trabalho e cognitivas dos julgadores, mas que a jurisdição continua sendo uma tarefa eminentemente humana, exigindo critério, cuidado e prudência para garantir o pleno respeito aos direitos fundamentais.
O STJ continua a promover o diálogo institucional e acadêmico para discutir os desafios emergentes e fortalecer o intercâmbio de conhecimentos. A expectativa é que a inovação tecnológica contribua para uma prestação jurisdicional mais eficiente, sem abrir mão da segurança jurídica e da essencial atuação humana nas decisões. A racionalização recursal, o fortalecimento dos precedentes qualificados e o aprimoramento da gestão processual são metas contínuas, impulsionadas também pela regulamentação do critério de relevância para admissão do recurso especial, previsto pela EC 125/22.
