Câncer Contagioso em Peixes: Estudo Revela Melanoma no Lago Memphremagog

Um estudo inovador publicado na revista Nature revelou a descoberta do primeiro câncer transmissível conhecido em peixes de água doce. O melanoma, um tipo de câncer de pele, está se espalhando entre bagres-da-cabeça-marrom (Ameiurus nebulosus) no Lago Memphremagog, que se estende pela fronteira entre Quebec, Canadá, e Vermont, Estados Unidos. A pesquisa, liderada por cientistas da Universidade de Vermont, Universidade de Washington e Universidade de Utah, destaca um fenômeno extremamente raro na natureza, onde as próprias células cancerígenas agem como parasitas, migrando de um animal para outro.
Pescadores e biólogos começaram a notar lesões escuras e elevadas nos bagres do lago já em 2012. Por volta de 2014, a incidência dessas manchas pretas já afetava cerca de um terço da população de bagres-da-cabeça-marrom, variando entre 23% e 37% em algumas amostras.
A Natureza Inusitada da Transmissão do Câncer
Inicialmente, os pesquisadores suspeitaram que as lesões fossem causadas por poluentes ambientais ou por uma infecção viral, dado que os bagres-da-cabeça-marrom são frequentemente utilizados como bioindicadores da qualidade da água e vivem no fundo do lago, em ambientes mais escuros.
No entanto, análises genéticas aprofundadas descartaram essas hipóteses. O sequenciamento completo do genoma dos tumores e do tecido saudável dos peixes revelou uma verdade surpreendente: as células cancerígenas dos diferentes peixes eram geneticamente muito mais semelhantes entre si do que com o DNA dos próprios hospedeiros. Essa assinatura genética é a prova de um câncer transmissível, onde as células tumorais se comportam como um agente infeccioso, passando diretamente de um indivíduo para outro.
A geneticista Julie Dragon, da Universidade de Vermont e co-líder do estudo, enfatizou a raridade do fenômeno. Apenas outros três casos de câncer transmissível haviam sido identificados anteriormente na natureza: em diabos-da-tasmânia, em cães (tumor venéreo transmissível canino) e em moluscos bivalves. Este é o primeiro registro em peixes e em um ecossistema de água doce.
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Implicações para a Saúde dos Peixes e Ecossistema
Embora a presença do melanoma seja alarmante, os pesquisadores observaram que muitos peixes infectados parecem conseguir viver com os tumores por vários anos. Em alguns casos, o câncer pode se espalhar para outros órgãos, como o cérebro ou o fígado, mas o impacto a longo prazo na população geral de bagres-da-cabeça-marrom ainda é incerto.
A forma exata de transmissão entre os bagres ainda está sob investigação. As hipóteses incluem o contato físico direto durante o período de reprodução, quando os peixes se agrupam, ou a entrada de células cancerígenas através da pele, boca ou brânquias a partir do sedimento aquático.
Ausência de Risco para Humanos
É crucial ressaltar que os pesquisadores enfatizam que esta doença não representa uma ameaça conhecida para a saúde humana. As células cancerígenas identificadas não são capazes de infectar ou sobreviver em outras espécies. O Lago Memphremagog é uma fonte de água potável para mais de 175.000 pessoas, e os especialistas afirmam que a água permanece segura. No entanto, por precaução, é aconselhável evitar o consumo de peixes que apresentem as lesões.
Desdobramentos e Próximos Passos
A descoberta do câncer transmissível não se restringe apenas ao Lago Memphremagog. Pesquisas adicionais em outras áreas da Nova Inglaterra e do Canadá detectaram a doença em outros lagos e lagoas, inclusive em locais com água considerada intocada e distantes de fontes óbvias de poluição industrial.
Embora a poluição direta tenha sido descartada como causa primária, os pesquisadores encontraram níveis elevados de arsênio nas células cancerígenas dos peixes. A distribuição geográfica da doença também parece coincidir com áreas de concentrações naturais de arsênio no solo. Embora não se tenha estabelecido uma relação causal direta, o arsênio, um conhecido carcinógeno, pode desempenhar um papel na suscetibilidade ou desenvolvimento do câncer.
O estudo abre novas avenidas para a compreensão de como o câncer pode evoluir e se espalhar na vida selvagem, e se fatores como estresse de habitat e mudanças climáticas podem influenciar esses processos. Os cientistas esperam que a pesquisa sobre este câncer incomum em peixes possa oferecer insights valiosos sobre os mecanismos que normalmente mantêm os cânceres contidos em um único organismo e o que acontece quando essas barreiras são rompidas.
