Celular de Daniel Vorcaro Inacessível: Ministros do STF Pedem Explicações à PF
Os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça e Luiz Fux, informaram à Polícia Federal (PF) neste sábado (19) que não conseguiram acessar a íntegra do conteúdo de um dos celulares apreendidos com Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Em ofícios separados enviados ao diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues, os magistrados solicitaram auxílio técnico e a verificação da integridade do material entregue, levantando questões sobre as dificuldades técnicas ou possíveis defeitos nas mídias.
A inoperabilidade dos dados intensifica a complexidade do chamado “Caso Master”, uma investigação que apura supostas fraudes financeiras e uma rede de influência envolvendo o ex-banqueiro. A disputa pelo acesso ao conteúdo do aparelho tem sido um ponto de atrito dentro da própria Corte, com outros ministros também solicitando e recebendo cópias dos mesmos dados.
Entrega e Inacessibilidade dos Dados
A Polícia Federal havia entregue aos gabinetes de Mendonça e Fux, na quinta-feira (17), cópias dos dados extraídos de um dos celulares de Daniel Vorcaro. A solicitação para acesso ao material foi feita pelos ministros na quarta-feira (16), um dia após uma sessão plenária do STF que discutiu a abertura de um inquérito contra o ministro Alexandre de Moraes por supostas conversas com o ex-banqueiro.
No entanto, André Mendonça afirmou em seu ofício que “este Gabinete não logrou êxito em obter acesso efetivo ao material ali contido, permanecendo os respectivos dados e informações indisponíveis ao exame e análise deste juízo”. O ministro Luiz Fux enfrentou o mesmo problema, conforme confirmado pelo STF. As dificuldades podem ser de ordem técnica operacional ou decorrer de algum defeito na mídia entregue.
Os dados do celular de Vorcaro, que somam cerca de 500 gigabytes (GB), estão organizados pela PF em pastas com chats, áudios e registros de atividades, utilizando um software de perícia chamado IPED (Indexador e Processador de Evidências Digitais). Este programa é projetado para facilitar a navegação e buscas por palavras-chave, inclusive em dados apagados ou protegidos por senha.
O Contexto do Caso Banco Master
Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, foi preso em novembro de 2025 no âmbito da Operação Compliance Zero da Polícia Federal, que investiga a emissão de títulos de crédito falsos e outras irregularidades financeiras. As investigações apontam para um esquema de fraudes bilionárias e uma suposta rede de monitoramento e influência que o ex-banqueiro teria montado, com potencial infiltração em diversas instituições da República.
Documentos da PF que tiveram o sigilo retirado em setembro de 2026 revelaram que Vorcaro tinha conhecimento antecipado da Operação Compliance Zero antes de sua deflagração. A PF reuniu indícios de que o banqueiro sabia da investigação, da vara e do nome do juiz que conduzia o processo, além de membros da equipe. Há também menções a uma “rede de proteção” e a supostas articulações para proteger o grupo investigado.
O caso ganhou grande repercussão devido ao suposto envolvimento de autoridades, incluindo ministros do STF. Mensagens encontradas no celular de Vorcaro citam outros ministros do Supremo, como Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes, Cristiano Zanin, Flávio Dino, Kassio Nunes Marques e até o filho do ministro Luiz Fux.
Disputas Internas no STF
O acesso ao celular de Daniel Vorcaro tornou-se um dos principais pontos de disputa interna no Supremo. Antes de Mendonça e Fux, os ministros Cristiano Zanin e Gilmar Mendes já haviam solicitado e recebido cópias dos dados. O ministro Alexandre de Moraes também teve acesso ao material.
A sessão do STF de 15 de setembro, que deveria decidir sobre a abertura de inquérito contra Alexandre de Moraes, foi marcada por confrontos entre os ministros, acusações sobre a condução das investigações e divergências sobre o rito adotado. André Mendonça, relator do caso Master, esteve no centro de embates com Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes. O julgamento foi suspenso após pedido de vista do ministro Flávio Dino.
Em meio a esses embates, Mendonça havia tornado público um relatório da PF com mensagens entre Moraes e Vorcaro, registros de encontros e informações sobre negociações envolvendo o Banco Master e um escritório de advocacia ligado à esposa de Moraes. A divulgação gerou uma crise e Moraes reagiu, apontando indícios de abuso de autoridade e crime de responsabilidade por parte de Mendonça, pedindo investigação sobre a conduta do colega.
Desdobramentos e Próximos Passos
A solicitação de auxílio técnico por parte de Mendonça e Fux à Polícia Federal visa garantir que os gabinetes possam efetivamente analisar o vasto material contido no celular de Vorcaro. A PF deverá agora providenciar o suporte necessário e verificar se há algum problema físico ou técnico nas mídias entregues.
Enquanto isso, a defesa de Daniel Vorcaro pediu a revogação de sua prisão preventiva, alegando que o prazo para reavaliação da medida, determinado pelo Código de Processo Penal, venceu no final de agosto sem análise pelo tribunal. A defesa também citou a indefinição da sessão do STF sobre o caso Master como um dos motivos para o pedido. Vorcaro e seu pai, Henrique Vorcaro, têm depoimento agendado para o dia 30 de setembro à Polícia Federal, onde serão questionados sobre a rede de contatos investigada em um dos inquéritos.
O caso Banco Master continua a ser um dos mais complexos e sensíveis em tramitação no Judiciário brasileiro, com desdobramentos que podem impactar a imagem e a credibilidade do Supremo Tribunal Federal. A garantia do acesso e da análise dos dados do celular de Daniel Vorcaro é crucial para a elucidação dos fatos e a continuidade das investigações.
