Gasolina brasileira agora tem 32% de etanol a partir deste sábado

A gasolina comum comercializada em todo o Brasil passou a ter, a partir deste sábado, 1º de agosto de 2026, 32% de etanol anidro em sua composição. A medida, aprovada pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) e regulamentada pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), eleva em dois pontos percentuais a participação do biocombustível, que até então era de 30%.
Conhecida como E32, a nova composição é de caráter excepcional e temporário, com validade inicial de 180 dias, podendo ser prorrogada uma única vez por igual período. O objetivo principal é reduzir a dependência do Brasil de combustíveis fósseis importados, fortalecer a indústria nacional de biocombustíveis e mitigar os impactos das flutuações dos preços internacionais do petróleo, especialmente em um cenário de custos elevados em decorrência de conflitos geopolíticos, como a guerra no Irã.
Contexto e Aprovação da Medida
A decisão de aumentar o percentual de etanol na gasolina foi formalizada na Resolução CNPE nº 9/2026, publicada em edição extra do Diário Oficial da União em 30 de julho de 2026. A aprovação pelo CNPE ocorreu em meados de julho, e a medida entra em vigor imediatamente.
Este aumento está alinhado com a Lei do Combustível do Futuro, de 2024, que ampliou a faixa permitida para a mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina, de 22% a 27% para um intervalo entre 22% e 35%. A implementação da E32 é vista como um período de testes para uma possível elevação futura para 35% de álcool, reforçando a estratégia do país em direção a uma matriz de transportes mais sustentável e menos dependente de combustíveis fósseis.
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Motivações Econômicas e Energéticas
A principal motivação para a elevação do teor de etanol é a busca por maior segurança energética e a redução da vulnerabilidade do Brasil às variações do mercado internacional de petróleo. O Ministério de Minas e Energia (MME) estima que a nova mistura pode levar a uma redução de aproximadamente R$ 0,03 por litro na bomba para o consumidor e uma diminuição de 450 milhões de litros nas importações anuais de gasolina.
Além disso, a medida visa impulsionar a cadeia sucroenergética brasileira, que é responsável por milhões de empregos e contribui para o cumprimento das metas ambientais do país, uma vez que o etanol possui uma pegada de carbono menor em comparação com a gasolina. O Brasil, segundo maior produtor mundial de etanol, caminha para uma produção recorde em 2026, com maior direcionamento da cana-de-açúcar para o biocombustível e crescimento da fabricação de etanol de milho. O setor estima uma demanda adicional de cerca de 1 bilhão de litros de etanol anidro por ano com a E32.
Impacto para o Consumidor e Veículos
Para o motorista, a mudança significa que a gasolina comum abastecida terá uma proporção maior de etanol anidro. A ANP e o Ministério de Minas e Energia afirmam que os testes realizados com a gasolina E32 não identificaram impactos relevantes no funcionamento dos veículos, incluindo aqueles com motores não flex, em aspectos como partida, estabilidade, aceleração e dirigibilidade.
Veículos flex modernos, equipados com sistemas eletrônicos que reconhecem diferentes proporções de gasolina e etanol, não devem exigir adaptação ou troca de peças. No entanto, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) recomenda maior atenção para veículos mais antigos, importados ou fabricados exclusivamente para funcionar com gasolina de menor teor de etanol. Nesses casos, a orientação é consultar o manual do proprietário ou a montadora.
Prazos de Adaptação e Fiscalização
A ANP estabeleceu prazos de transição para que a cadeia de abastecimento se adapte às novas exigências, considerando os estoques de gasolina E30 (com 30% de etanol anidro) já produzidos e distribuídos. A fiscalização observará os seguintes períodos antes da aplicação de autuações:
- Distribuidoras de combustíveis:
- 15 dias nas regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste.
- 30 dias na Região Norte.
- Postos revendedores:
- 30 dias nas regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste.
- 60 dias na Região Norte.
Os prazos diferenciados para a Região Norte levam em conta as particularidades logísticas e os maiores tempos de transporte da região. Durante esses períodos, os consumidores ainda poderão encontrar combustíveis com 30% de etanol nos postos.
Controvérsias e Questionamentos
Apesar das garantias do governo, o Ministério Público Federal (MPF) questionou a segurança da medida, entrando com uma ação para suspender a mudança. O órgão argumenta que não foram apresentados estudos específicos e abrangentes o suficiente sobre os efeitos da E32 em toda a diversidade da frota brasileira, alegando que os testes utilizados pelo governo teriam sido elaborados originalmente para avaliar a mistura E30.
Detalhes Técnicos e Exceções
É importante ressaltar que a alteração para 32% de etanol aplica-se à gasolina C comum e à gasolina C comum aditivada. O percentual de etanol anidro na gasolina premium permanece em 25%. A ANP esclarece que a adoção da mistura E32 não altera, neste momento, as demais especificações da gasolina previstas na Resolução ANP nº 807/2020, incluindo o Número de Octano Pesquisa (RON), que permanece em 94,0.
Histórico da Mistura de Etanol na Gasolina Brasileira
A mistura de etanol na gasolina no Brasil não é uma novidade, tendo suas raízes na década de 1930. A primeira lei sobre o tema, de 1931, estabeleceu a mistura de até 5% de etanol anidro na gasolina, motivada por preocupações econômicas e pela dependência da gasolina importada.
Com a criação do Programa Nacional do Álcool (Proálcool) em 1975, o percentual de etanol na gasolina passou a ser padronizado e incentivado, visando a autossuficiência energética após as crises do petróleo. Ao longo das décadas, o teor variou, chegando a 27% para a gasolina comum e 25% para a premium em 2015, e posteriormente a 30% antes da atual alteração para 32%.
