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IA impulsiona desenvolvimento do Sul Global com cooperação UE-Brasil

Horário 17/06/2026
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A Inteligência Artificial (IA) representa uma oportunidade transformadora para o Sul Global, com potencial para impulsionar o desenvolvimento econômico e social, afirmou a embaixadora da União Europeia (UE) no Brasil, Marian Schuegraf. A declaração foi feita durante a abertura da Conferência do Forte, promovida pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) e a Fundação Konrad Adenauer, em 16 de junho de 2026, no Rio de Janeiro.

Schuegraf enfatizou que, embora a IA traga vastas oportunidades, seu avanço deve ser pautado pela responsabilidade, respeitando a privacidade, os direitos humanos e os princípios democráticos. A visão europeia defende uma abordagem da inteligência artificial centrada no ser humano, garantindo que a tecnologia sirva para fortalecer a coesão social e melhorar áreas cruciais como educação, saúde e serviços públicos.

Visão Estratégica da União Europeia para a IA

A União Europeia tem consolidado sua estratégia para a Inteligência Artificial com foco em um desenvolvimento tecnológico responsável e na promoção do bem-estar social. Desde 2018, a Comissão Europeia tem lançado e reforçado iniciativas como a estratégia “IA para a Europa” e o “Plano Coordenado sobre a Inteligência Artificial”, que visam posicionar o bloco como um centro de excelência em IA, ao mesmo tempo em que assegura que sua utilização respeite os valores fundamentais europeus.

Mais recentemente, em outubro de 2025, a Comissão Europeia lançou a estratégia “Aplicar a IA”, um plano para acelerar a adoção da inteligência artificial em toda a UE, reforçando a competitividade dos setores e a soberania tecnológica europeia. Esta estratégia propõe a integração da IA como prioridade em decisões políticas e empresariais, promovendo o uso de soluções europeias, especialmente de código aberto, com foco em pequenas e médias empresas e no setor público.

Paralelamente, a estratégia “IA na Ciência” apoia o desenvolvimento e uso da IA pela comunidade científica, incluindo o projeto-piloto “Resource for AI Science in Europe (RAISE)”. A UE busca, com essas iniciativas, equilibrar o investimento em inovação com uma regulação orientada por princípios éticos e sociais, e através de parcerias com países terceiros, moldar uma governança global da IA que reflita seus valores democráticos.

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Parceria Digital Brasil-UE: Um Marco de Cooperação

A relevância da visão europeia para o Sul Global foi materializada na recente assinatura de uma Parceria Digital entre Brasil e União Europeia, ocorrida em 12 de junho de 2026, em Brasília. Este acordo eleva a cooperação bilateral a um novo patamar estratégico, intensificando ações conjuntas em áreas como governança da inteligência artificial, infraestrutura pública digital, conectividade, proteção de dados, semicondutores, computação de alta performance e inovação científica e tecnológica.

O Brasil se tornou o quinto país no mundo a firmar este tipo de parceria digital com a União Europeia, juntando-se a Canadá, Coreia do Sul, Japão e Singapura. Essa iniciativa, proposta pelo próprio bloco europeu, busca fortalecer a cooperação tecnológica e reduzir a dependência externa em setores estratégicos, atualmente dominados por empresas de outros países.

A ministra da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos do Brasil, Esther Dweck, destacou que a parceria chega em um momento oportuno para o país, que tem avançado em iniciativas para fortalecer sua soberania digital. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, inclusive, deve anunciar em breve a aquisição de um supercomputador de IA, reforçando esse compromisso com a autonomia tecnológica.

A cooperação digital entre Brasil e UE já possui uma base sólida de quase duas décadas, formalizada em 2007 com a Parceria Estratégica e aprofundada com o Diálogo Digital Brasil-UE. O acordo atual transforma esse diálogo técnico em um compromisso político de alto nível, abrangendo também a proteção de crianças no ambiente online e a coordenação em fóruns multilaterais de governança da internet.

Desafios e Riscos da IA para o Desenvolvimento Global

Apesar do otimismo em relação às oportunidades, a embaixadora Marian Schuegraf também alertou para os riscos. Ela ressaltou que a inteligência artificial tem aprofundado a divisão entre os países que desenvolvem a tecnologia e aqueles que apenas a utilizam, dificultando a distinção entre fato e desinformação.

Relatórios de organizações internacionais corroboram essa preocupação. Um estudo do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), divulgado em dezembro de 2025, alertou que a IA não regulada pode desencadear uma nova era de divergências entre países, ampliando desigualdades econômicas, sociais e tecnológicas. O documento, intitulado “A próxima grande divergência: por que a IA pode aumentar a desigualdade entre os países”, sugere que avanços em comércio e tecnologia que reduziram diferenças nas últimas décadas podem ser corroídos, com impactos negativos até mesmo para as nações mais ricas em termos de segurança e migração.

Em uma perspectiva similar, o assessor especial da Presidência da República do Brasil, embaixador Celso Amorim, defendeu, em 16 de junho de 2026, que a IA sob controle de um grupo restrito de empresas, sediadas em poucos países, tem o potencial de aprofundar as desigualdades globais e minar os sistemas democráticos. Ele enfatizou a necessidade de os Estados não abdicarem de sua capacidade regulatória diante do poder das big techs.

Um estudo do Fundo Monetário Internacional (FMI) de 2020 já indicava que as novas tecnologias poderiam aumentar a distância entre países ricos e pobres ao concentrar investimentos em economias avançadas, com o risco de substituir, em vez de complementar, a força de trabalho em expansão nos países em desenvolvimento.

Potencial de Transformação para o Sul Global

Apesar dos desafios, a IA oferece um vasto potencial para o desenvolvimento do Sul Global. Países em desenvolvimento podem “saltar” etapas tecnológicas, indo diretamente para as tecnologias emergentes, assim como muitos fizeram ao adotar a telefonia móvel sem passar pela fixa. Isso significa que, sem o peso da infraestrutura legada, é possível focar em aplicações de IA de alto impacto.

A IA pode ser uma ferramenta poderosa para fortalecer a coesão social, melhorar a educação e o acesso à saúde. Em setores como agricultura, por exemplo, a IA pode otimizar a produção e a gestão de recursos. Para que isso ocorra, é crucial investir em capacidades fundamentais, mobilizar financiamento inovador e utilizar o espaço político existente para acelerar o desenvolvimento.

A co-inovação é vista como estrategicamente prudente para o Sul Global, especialmente considerando desafios comuns como doenças e exposições climáticas, além da disponibilidade de dados abundantes e talentos técnicos. A colaboração internacional, como a estabelecida entre Brasil e UE, é fundamental para garantir que os benefícios do progresso tecnológico sejam compartilhados de forma mais equitativa globalmente.

Desdobramentos e Perspectivas Futuras

A Conferência do Forte e a Parceria Digital Brasil-UE são exemplos do crescente reconhecimento da IA como um pilar central da política externa e da segurança. A discussão sobre a IA e seu impacto no desenvolvimento social e econômico é crucial em um cenário de rápida transformação tecnológica.

A União Europeia continua a buscar alianças para construir uma governança global da IA que vá além do eixo EUA-China, promovendo um sistema inclusivo e baseado em regras. Nesse contexto, o Brasil se posiciona como um parceiro estratégico e confiável, contribuindo para moldar o futuro digital global.

A agenda de cooperação entre Brasil e Suíça, que incluiu discussões sobre IA durante a recente viagem do presidente Lula à Europa, também reforça o compromisso do Brasil em explorar a inteligência artificial como uma área de inovação e desenvolvimento digital, buscando valor agregado e soberania em um cenário global competitivo.

A necessidade de um “código da estrada para a inteligência artificial”, como defendido pelo presidente do Conselho Europeu, António Costa, no G7 em junho de 2026, ressalta a urgência de uma regulamentação coordenada e multilateral para garantir que a IA seja uma força para o bem, impulsionando o desenvolvimento e combatendo as desigualdades em escala global.

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