JPMorgan Eleva Raízen em Meio a Temor de Falência: O que Muda?

O banco de investimentos JPMorgan tomou uma decisão contraintuitiva no mercado de dívida da Raízen Energia (RAIZBZ), elevando a recomendação dos títulos internacionais da companhia para Overweight (exposição acima da média do mercado), em um cenário de intensa pressão e rumores de uma possível recuperação judicial da empresa.
A mudança na recomendação ocorreu após os títulos de dívida da Raízen experimentarem uma deterioração significativa no sentimento dos investidores, o que se refletiu no aumento dos *spreads* (diferenciais de rendimento) e na queda de seus preços.
Contexto da Pressão no Mercado de Dívida
O estresse sobre os títulos da Raízen foi catalisado por uma ação da sua controladora, a Cosan (CSAN3). A Cosan anunciou o resgate antecipado de seus próprios títulos, o que, por sua vez, levou à eliminação da cláusula de vencimento antecipado cruzado (o *cross-default*).
Essa movimentação foi interpretada pelo mercado como um possível sinal de menor comprometimento da holding com a Raízen em momentos de dificuldade financeira. A apreensão gerada por essa percepção levou à venda de títulos e a uma abertura da curva de rendimento dos *bonds* da Raízen, que chegou a variar entre 50 e 110 pontos-base (0,5 a 1,1 ponto percentual) em apenas dois dias.
Impacto nos Títulos e Rendimentos
Com a pressão vendedora, os títulos de dívida internacional da Raízen (RAIZBZ) passaram a ser negociados com um rendimento ao pior (YTW) variando entre 10% e 10,9%, enquanto os preços médios em dólar recuaram para cerca de US$ 76.
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A Análise do JPMorgan e a Tese de Investimento
Apesar do forte ruído e da desconfiança do mercado, o JPMorgan argumenta em seu relatório que o nível de estresse precificado nos títulos da Raízen é excessivo e não se justifica pelos fundamentos atuais da companhia.
Descartando a Recuperação Judicial
O ponto central da recomendação Overweight é o posicionamento do banco de que uma recuperação judicial não está no radar no momento. O JPMorgan fundamenta essa visão em três pilares principais:
- Liquidez Confortável: A Raízen possui uma posição de liquidez robusta, estimada em aproximadamente US$ 5,3 bilhões, somando caixa, linhas de crédito disponíveis e recursos a receber.
- Recebíveis de Desinvestimentos: Espera-se que a companhia receba cerca de US$ 755 milhões ao longo de 2026, referentes a vendas de ativos realizadas no ano anterior que ainda não foram refletidas no último balanço.
- Melhora no Fluxo de Caixa Livre (FCF): Há uma expectativa de melhora no FCF da empresa ao longo dos próximos trimestres, o que reforça sua capacidade de honrar compromissos.
Apesar da visão positiva de que a crise de crédito é tática e de curto prazo, o banco norte-americano ressalta que, para resolver de forma definitiva o problema de estrutura de capital e alavancagem (que deve fechar o ano fiscal próximo a 4 vezes, acima do limite de 2,5x usualmente exigido por agências de rating), seria necessária uma nova injeção de capital.
Repercussões e Perspectivas
A elevação da recomendação pelo JPMorgan deu um alívio momentâneo aos títulos da dívida, que ganharam fôlego no mercado secundário de crédito, embora as ações da empresa na bolsa (RAIZ4) tenham continuado sob pressão em dias recentes, refletindo preocupações mais amplas com o endividamento. A análise do banco sugere que o mercado precificou exageradamente o risco de suporte da Cosan, oferecendo um prêmio de risco atrativo para investidores dispostos a apostar na resiliência operacional da Raízen, que é uma das maiores empresas de energia e bioenergia do mundo.
Apesar do voto de confiança tático do JPMorgan, o cenário para a Raízen segue sob observação intensa do mercado, especialmente em relação à sua estratégia de desalavancagem e à necessidade de otimização da estrutura de capital no médio prazo.
