Brasil na Onda da IA: Feldmann da USP Propõe Estratégia Única

O Brasil deve focar em se tornar um excelente usuário da inteligência artificial (IA) e um polo global de infraestrutura para data centers, em vez de tentar competir com potências como Estados Unidos e China no desenvolvimento de modelos e chips de IA. Essa é a tese central defendida por Paulo Feldmann, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP, em artigo recente publicado na Folha de S.Paulo.
A visão de Feldmann surge em um momento em que o país intensifica seus próprios esforços para integrar a IA em diversos setores, com investimentos significativos e um plano nacional abrangente em andamento. A estratégia proposta pelo economista visa capitalizar as vantagens competitivas do Brasil e mitigar os desafios de um cenário tecnológico global dominado por poucos atores.
A Estratégia de Feldmann: Usuário e Provedor de Infraestrutura
Paulo Feldmann argumenta que o Brasil não possui as condições necessárias para competir diretamente com os EUA e a China na vanguarda do desenvolvimento de modelos de IA e na fabricação de chips de alta performance. Ele aponta para a escassez de profissionais especializados e a necessidade de investimentos massivos, que superam a capacidade atual do país, como os principais entraves.
Em vez de buscar uma competição desigual, Feldmann propõe que o Brasil adote uma abordagem pragmática, focando em três frentes principais:
- Fortalecimento do Uso da Tecnologia: O país deve se concentrar em aplicar a IA de forma eficaz em diversos setores, como saúde, educação, agronegócio e segurança pública, para aumentar a produtividade e a eficiência. A qualificação de profissionais em todas as áreas para utilizar e aplicar a IA é crucial, sob pena de se tornarem obsoletos.
- Atração de Data Centers Globais: O Brasil possui vantagens competitivas significativas, como a abundância de energia limpa e água, que são recursos essenciais para a operação de grandes data centers. Ao atrair essas infraestruturas globais, o país poderia se posicionar como um provedor mundial de infraestrutura para IA, gerando valor e empregos.
- Governança Democrática da IA: É fundamental defender uma governança democrática da inteligência artificial para evitar o domínio de poucas empresas e estados autoritários sobre essa tecnologia transformadora.
Vantagens Competitivas e Políticas Públicas
A localização estratégica e os recursos naturais do Brasil oferecem um diferencial para a instalação de data centers, que são a espinha dorsal da revolução da IA. A demanda por esses centros de processamento de informação, com capacidades e velocidades enormes, é crescente. Feldmann enfatiza a necessidade de políticas públicas robustas para apoiar a construção e atração desses data centers.
Panorama Atual da IA no Brasil: Planos e Investimentos
A proposta de Feldmann se alinha e complementa as iniciativas já em curso no Brasil para o desenvolvimento da IA. O governo brasileiro tem demonstrado um compromisso crescente com a tecnologia, visando posicionar o país como líder na América Latina.
Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA)
Lançado em julho de 2024, o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) 2024-2028 é a estratégia mais abrangente do país até o momento. Com investimentos públicos e privados projetados para superar 23 bilhões de reais até 2028, o PBIA estabelece metas e diretrizes para o desenvolvimento e aplicação da IA em diversas áreas. O plano é organizado em cinco eixos estratégicos:
- Infraestrutura e Desenvolvimento de IA.
- Disseminação, Formação e Capacitação.
- Melhoria de Serviços Públicos.
- Inovação Empresarial.
- Apoio à Regulação e Governança.
Investimentos em Supercomputação
Em agosto de 2026, o governo brasileiro anunciou um investimento de cerca de 2,3 bilhões de reais (aproximadamente 444,2 milhões de dólares) para fortalecer seu ecossistema de inteligência artificial. Parte desse montante, 1,3 bilhão de reais, será destinada a um projeto de infraestrutura de supercomputação no Rio de Janeiro, em parceria com as empresas chinesas Huawei Technologies e iFlytek. Essa infraestrutura será utilizada principalmente para desenvolver grandes modelos de linguagem, tanto para aplicações gerais quanto específicas de setores.
Adicionalmente, cerca de 1 bilhão de reais serão alocados por meio de uma licitação para um supercomputador que o Brasil espera que esteja entre os 10 mais poderosos do mundo em processamento de IA. A expectativa é que a empresa norte-americana Nvidia vença essa licitação, e a máquina será instalada no Rio Grande do Norte, escolhido por seu potencial energético. A meta é que este supercomputador esteja operacional até o final de 2027.
Regulamentação da IA
No âmbito legislativo, o Senado brasileiro aprovou em dezembro de 2024 o Projeto de Lei nº 2338/2023, conhecido como a “Lei da IA”. Este projeto busca estabelecer um arcabouço regulatório abrangente para a inteligência artificial no Brasil, com foco no desenvolvimento, promoção e uso ético e responsável da tecnologia, priorizando a centralidade da pessoa humana. O PL segue para deliberação na Câmara dos Deputados.
Desafios e Oportunidades Futuras
A estratégia de Feldmann e os planos governamentais convergem na necessidade de construir uma base sólida para a IA no Brasil. No entanto, o país enfrenta desafios como a formação de uma força de trabalho qualificada em IA, que ainda é um número pequeno comparado às necessidades do mercado.
A ênfase na soberania de dados é outro ponto crucial, com os investimentos governamentais visando fortalecer o controle nacional sobre as informações. A colaboração com parceiros internacionais, como a parceria com a Espanha para desenvolver semicondutores baseados na arquitetura RISC-V, e a criação de um centro nacional para transparência algorítmica e IA confiável, operado pela Universidade Federal de Minas Gerais, demonstram a busca por autonomia e ética na tecnologia.
Ao focar em se tornar um usuário estratégico e um provedor de infraestrutura de IA, o Brasil pode maximizar seus recursos, atrair investimentos e garantir um desenvolvimento tecnológico que beneficie a sociedade como um todo, sem a necessidade de competir diretamente com as grandes potências na corrida pela criação de modelos de IA de ponta.
