IA pode causar déficit permanente em habilidades de crianças, alerta pesquisador

O uso indiscriminado e sem supervisão de ferramentas de Inteligência Artificial (IA) por crianças e adolescentes pode resultar em um déficit permanente no desenvolvimento de habilidades cognitivas e sociais, alertou o professor Paulo Blikstein, da Universidade Columbia. A declaração foi feita em entrevista à Folha de S.Paulo, gerando um debate urgente sobre a necessidade de regulamentação e cautela na adoção dessas tecnologias no ambiente educacional e familiar.
Blikstein, que há anos estuda o uso da tecnologia na aprendizagem, expressa profunda preocupação com a velocidade e o entusiasmo com que a IA tem sido incorporada, muitas vezes sem embasamento em evidências científicas sobre seus reais benefícios ou impactos a longo prazo no desenvolvimento infantil. Ele defende a implementação de verificação etária para o acesso a essas ferramentas, similar ao que já ocorre com as redes sociais.
Impactos no Desenvolvimento Cognitivo e Social
A principal preocupação levantada pelo pesquisador é que a facilidade de acesso a respostas e a execução de tarefas por meio da IA podem atrofiar a capacidade das crianças de desenvolverem habilidades essenciais. Adultos já possuem a autonomia para discernir quando usar uma ferramenta e quando realizar uma tarefa por conta própria, mas crianças e adolescentes ainda não desenvolveram essa distinção crucial.
Prejuízos ao Pensamento Crítico e Resolução de Problemas
A dependência de chatbots para a criação de textos ou realização de cálculos, por exemplo, pode impedir que os jovens desenvolvam o pensamento crítico, a capacidade de argumentação e a resolução autônoma de problemas. Blikstein adverte que, em cinco anos, poderemos observar uma geração com dificuldades em escrever ou realizar operações matemáticas sem o auxílio da IA, comprometendo habilidades mais duradouras e profundas do que o aprendizado elementar.
Déficit nas Habilidades Sociais e Emocionais
Além dos aspectos cognitivos, o uso excessivo e não supervisionado da IA pode reduzir as interações humanas fundamentais, impactando o desenvolvimento de habilidades sociais e emocionais. Embora a IA possa oferecer ambientes de aprendizagem personalizados, ela não substitui a riqueza das trocas de experiências e do aprendizado social obtido em interações reais com pais, professores e colegas.
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Aceleração da Adoção e Ausência de Regulamentação
Relatórios recentes, como o do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), indicam que crianças e adolescentes estão adotando ferramentas de IA em um ritmo três vezes maior que os adultos. Cerca de 13 milhões de crianças em dez países, incluindo o Brasil, já utilizam a IA para estudos e tarefas escolares, e mais de 2 milhões buscam conselhos sobre questões pessoais na tecnologia.
Essa rápida incorporação, no entanto, não tem sido acompanhada por evidências científicas robustas que comprovem seus benefícios educacionais ou por regulamentações que previnam abusos e riscos. A indústria de tecnologia e tecnologia educacional é vista como um fator que impulsiona a adoção dessas soluções nas redes de ensino, muitas vezes sem consultar pesquisadores e professores.
Riscos de Privacidade e Desinformação
Outras preocupações incluem a privacidade e a segurança dos dados das crianças. Muitos dispositivos e plataformas coletam informações sensíveis, como preferências e hábitos de uso, sem regulamentação adequada. Há também o risco de exposição a conteúdos gerados por IA que promovem estereótipos, preconceitos e desinformação, além da manipulação de imagens e vídeos, como deepfakes.
O Papel dos Pais, Educadores e Reguladores
Blikstein enfatiza que o trabalho do professor vai muito além de apenas explicar conteúdos; ele é um motivador e um modelo para as crianças. A substituição de educadores pela IA seria um equívoco com graves implicações.
Especialistas e estudos apontam a necessidade urgente de um equilíbrio entre o uso da IA e estímulos reais e significativos, especialmente nos primeiros anos de vida. A participação ativa de pais e educadores é crucial para garantir que a tecnologia seja uma ferramenta complementar e para orientar o uso consciente, minimizando riscos e maximizando potenciais benefícios.
A comunidade acadêmica e organizações como o Unicef clamam por mais pesquisas sobre os efeitos da IA nas crianças e adolescentes antes que seu uso se torne descontrolado. A regulamentação, incluindo a verificação de idade para o acesso a ferramentas de IA, é vista como uma medida essencial para proteger o desenvolvimento neuropsicológico e socioemocional da próxima geração.
Desdobramentos e Perspectivas Futuras
O debate sobre a IA na infância ganha força à medida que a tecnologia avança. A discussão não se limita a proibir, mas a garantir um uso ético, seguro e pedagogicamente responsável. A busca por um consenso entre desenvolvedores de tecnologia, educadores, pais e formuladores de políticas públicas é fundamental para moldar um futuro onde a IA seja uma aliada no desenvolvimento infantil, e não uma ameaça permanente às suas habilidades essenciais.
