IA na Saúde Brasileira Cresce Focada em Burocracia e Gestão

O uso da Inteligência Artificial (IA) no setor de saúde brasileiro tem avançado significativamente, com 18% dos estabelecimentos já utilizando a tecnologia em 2025, um aumento notável em relação aos 4% registrados em 2024. No entanto, a aplicação da IA ainda se concentra predominantemente em tarefas burocráticas e administrativas, visando a otimização de processos e a redução de custos operacionais.
Dados da 12ª edição da pesquisa TIC Saúde, divulgada em maio de 2026 pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), por meio do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), revelam que a principal aplicação da IA está relacionada à organização de processos clínicos e administrativos, sendo mencionada por 45% das unidades que utilizam a tecnologia.
Crescimento e Aplicações Atuais da IA na Saúde
A pesquisa TIC Saúde 2025, que entrevistou 3.270 gestores de estabelecimentos de saúde em todo o país, aponta que, em hospitais com mais de 50 leitos, o percentual de adoção da IA atinge 31%. Nos Serviços de Apoio Diagnóstico e Terapêutico (SADT), o índice é de 29%.
Entre os modelos de IA mais adotados, a IA generativa lidera, presente em 76% dos estabelecimentos, seguida pela mineração de texto (52%) e automação de processos (48%).
As aplicações mais comuns da IA em processos administrativos e operacionais incluem:
- Agendamento automatizado de consultas: Chatbots e assistentes virtuais facilitam o agendamento e o envio de lembretes, melhorando a eficiência e reduzindo faltas.
- Gestão de prontuários eletrônicos: A IA auxilia na organização e análise de dados clínicos, gerando insights valiosos e otimizando o preenchimento.
- Otimização de leitos e escalas: Algoritmos preveem a demanda por leitos e otimizam a alocação de equipes, resultando em maior eficiência hospitalar.
- Automação de tarefas repetitivas: Processos como conferência de dados, organização de documentos e processamento de procedimentos burocráticos para seguros são automatizados, liberando profissionais para o cuidado direto.
- Melhora na segurança digital: A IA contribui para a proteção de dados e sistemas, um aspecto crucial diante da sensibilidade das informações de saúde.
Apesar do foco administrativo, a IA também é utilizada para melhorar a eficiência dos tratamentos (32%), auxiliar na logística (31%), apoiar a gestão de recursos humanos (27%), auxiliar nos diagnósticos (26%) e na dosagem de medicamentos (14%).
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Desafios e Barreiras para a Adoção Plena
Mesmo com o avanço, a implementação da IA no setor de saúde enfrenta obstáculos significativos. Os principais desafios apontados pelos gestores de hospitais com mais de 50 leitos são:
- Custos elevados: 63% dos gestores citam o alto investimento inicial como uma barreira.
- Falta de priorização institucional: 56% dos entrevistados indicam a ausência de uma estratégia clara para a adoção da IA.
- Limitações de dados e capacitação: 51% mencionam a dificuldade em lidar com a qualidade e integração dos dados, além da escassez de profissionais qualificados.
A interoperabilidade, ou seja, a troca de dados de saúde entre diferentes estabelecimentos, ainda é um desafio. Embora 92% dos estabelecimentos utilizem sistemas eletrônicos para registro de pacientes, menos da metade (44%) possui sistemas que permitem o envio ou recebimento de encaminhamentos eletrônicos.
Há também uma disparidade entre os setores público e privado. Enquanto 25% das instituições privadas utilizam IA, apenas 11% das públicas relataram o uso da tecnologia. No entanto, o Sistema Único de Saúde (SUS) é reconhecido pelo seu potencial devido ao grande volume e diversidade de dados disponíveis, que poderiam impulsionar o desenvolvimento de algoritmos robustos.
Desdobramentos e Perspectivas Futuras
Especialistas e gestores estão otimistas com o potencial da IA para expandir a capacidade de atendimento e reduzir o tempo de espera. A tendência é que a IA evolua para além das tarefas administrativas, com o desenvolvimento de agentes de IA mais especializados e integrados aos fluxos de cuidado e gestão.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) tem enfatizado a necessidade de governança ética, segurança e validação clínica para a implementação da IA na saúde, especialmente em países com desigualdades de acesso, como o Brasil. A consolidação de diretrizes e marcos regulatórios é considerada fundamental para garantir uma adoção responsável e segura da tecnologia.
Startups também estão entrando nesse cenário, desenvolvendo soluções de IA para otimizar o fluxo de informações entre médicos e especialistas, combatendo o “caos administrativo” e complementando o trabalho humano.
O avanço contínuo da digitalização no setor de saúde, com 92% dos estabelecimentos utilizando sistemas eletrônicos para registro de informações dos pacientes, cria uma base sólida para a expansão e aprimoramento das aplicações de IA, prometendo um futuro com mais eficiência e qualidade no atendimento.
