Oracle à beira do grau especulativo após S&P rebaixar rating por altos custos da IA

A S&P Global Ratings rebaixou o rating de crédito de longo prazo da Oracle de ‘BBB’ para ‘BBB-‘ em 9 de julho de 2026, colocando a gigante de tecnologia a apenas um degrau do status de ‘grau especulativo’, comumente conhecido como ‘junk bond’. A decisão reflete o crescente risco de negócios e a deterioração das métricas de fluxo de caixa da empresa, impulsionados pelos investimentos massivos na infraestrutura de nuvem de inteligência artificial (IA).
A corrida global pela IA tem exigido investimentos bilionários em chips, energia e data centers, impactando o balanço financeiro de diversas empresas do setor de tecnologia. No caso da Oracle, a agência de classificação de risco citou uma projeção de gastos de capital (capex) recordes e um déficit de fluxo de caixa operacional significativamente maior, além de uma alta concentração de clientes como fatores-chave para o rebaixamento.
Decisão da S&P e Implicações para a Oracle
O rebaixamento da S&P Global Ratings para ‘BBB-‘ é um golpe financeiro e psicológico para a Oracle, uma empresa de tecnologia de grande porte. Embora a perspectiva se mantenha estável, indicando que a S&P não espera um novo corte no curto prazo, a nova classificação deixa a Oracle sem margem antes de cair para o território de grau especulativo. Uma classificação de ‘junk bond’ pode aumentar os custos de empréstimo da empresa, dificultar o acesso a novos financiamentos e afastar investidores mais conservadores que têm restrições a papéis de alto risco.
A agência justificou o downgrade pela rápida expansão dos negócios de infraestrutura de IA da Oracle, que está diluindo seu forte perfil de risco de negócios. A S&P admitiu ter subestimado a escala dos investimentos necessários para expandir os negócios de IA e seu impacto na credibilidade geral da Oracle.
O Custo da Ambição em IA: Capex e Fluxo de Caixa
A principal preocupação da S&P reside nos investimentos agressivos da Oracle em sua infraestrutura de nuvem de IA. A agência projeta que os gastos de capital da Oracle para o ano fiscal de 2027 (que termina em maio de 2027) atingirão entre US$ 90 bilhões e US$ 95 bilhões. Este valor representa um salto massivo em relação à previsão anterior de US$ 60 bilhões e é impulsionado pelos crescentes custos de componentes de chips de IA e pela construção de novos data centers.
Consequentemente, o déficit de fluxo de caixa operacional livre da Oracle para o ano fiscal de 2027 deverá se expandir para um impressionante negativo de US$ 42 bilhões, quase o dobro da projeção anterior de US$ 24 bilhões. Além disso, as relações de dívida ajustada em relação à alavancagem devem atingir a faixa de 4x no ano fiscal de 2027, ultrapassando o limite que a S&P considera seguro para um perfil ‘BBB’ padrão. Em janeiro de 2026, a dívida de longo prazo da Oracle já havia explodido para mais de US$ 120 bilhões, quase o triplo do valor de uma década atrás.
Risco de Concentração de Clientes
Outro fator crucial para o rebaixamento é a alta dependência da Oracle de um único cliente: a OpenAI. A empresa de inteligência artificial é responsável por aproximadamente metade dos US$ 638 bilhões em obrigações de desempenho restantes da Oracle, criando um risco de concentração extrema, segundo a S&P. Essa dependência, embora represente um grande volume de contratos, também expõe a Oracle a riscos caso a demanda ou as condições contratuais com a OpenAI se alterem.
Veja também:
Estratégia de Financiamento da Oracle
Para financiar sua ambiciosa expansão em IA, a Oracle tem planos de levantar fundos significativos. A empresa anunciou que espera arrecadar entre US$ 45 bilhões e US$ 50 bilhões em receita bruta de caixa em 2026, por meio de uma combinação de financiamento por dívida e capital próprio. Para o ano fiscal de 2027, a expectativa é levantar aproximadamente US$ 40 bilhões, incluindo uma emissão de ações no valor de US$ 20 bilhões já anunciada.
A Oracle tem buscado ativamente medidas para salvaguardar seu rating de crédito de grau de investimento. Em fevereiro de 2026, a empresa emitiu US$ 5 bilhões em ações preferenciais conversíveis obrigatórias e planeja emitir mais US$ 20 bilhões em capital ainda este ano, esperando arrecadar dezenas de bilhões adicionais nos próximos três anos. A empresa também afirmou que os pagamentos antecipados e o hardware fornecido pelo cliente em seus grandes contratos de IA totalizam agora US$ 75 bilhões, o que reduz substancialmente a quantidade de capital que a Oracle precisa levantar para construir seus data centers de IA.
Essa estratégia de financiamento agressiva, que inclui o recurso a novas dívidas e emissão de capital, tem sido um ponto de atenção para os investidores, que monitoram o aumento do endividamento para suportar a expansão da capacidade de nuvem e IA.
Reação do Mercado e Contexto da Corrida Global por IA
Apesar do rebaixamento pela S&P, as ações da Oracle inicialmente subiram 2,7% no dia do anúncio, com alguns investidores focando no vultoso backlog de US$ 638 bilhões em contratos de nuvem. No entanto, a euforia durou pouco, e o preço das ações reverteu o curso no dia seguinte, caindo 3,4% em 10 de julho. A Oracle acumula uma queda de 28% no acumulado do ano e perdeu quase 60% de seu pico de 52 semanas, com um desempenho abaixo do setor de tecnologia. Essa volatilidade reflete a reavaliação dramática das empresas de infraestrutura de IA, à medida que os investidores se tornam mais céticos quanto à intensidade de capital necessária para competir na computação em nuvem.
A situação da Oracle não é isolada. A “corrida do ouro” da IA está cobrando um preço alto de todo o setor. Empresas como Meta, Microsoft, Google e Amazon também estão aumentando seus gastos em 2026, impulsionadas pela busca por modelos mais potentes e pela entrega de produtos baseados em IA. Os investimentos globais em IA estão projetados para superar US$ 2,5 trilhões neste ciclo, com projeções de gastos ultrapassando US$ 3 trilhões no próximo ciclo.
Analistas do Gartner alertam que as empresas enfrentam a escolha de amadurecer a base semântica de seus dados ou aceitar que a IA continuará operando às cegas, com um preço alto e entrega aquém do prometido. Há uma crescente preocupação com uma possível bolha no mercado de IA, com altos preços de ações e avaliações extremas sendo vistos como sinais típicos de uma bolha prestes a estourar. A questão central para os executivos não é quanto investir em IA, mas se a organização possui a maturidade semântica e a governança de dados necessárias para que esse investimento se converta em vantagem competitiva real.
Desdobramentos e Perspectivas Futuras
Apesar do cenário desafiador, a S&P manteve uma perspectiva estável para a Oracle, refletindo a expectativa de que a empresa demonstrará melhorias consistentes na lucratividade à medida que a capacidade de IA for ativada e os negócios escalarem. A Oracle continua a investir fortemente para competir com gigantes da nuvem como Amazon Web Services e Microsoft Azure, apostando em grandes projetos de infraestruturas dedicadas à IA, como o projeto Stargate, um megacentro de dados no Texas desenvolvido em parceria com a OpenAI.
A empresa tem enfatizado que seus sistemas de IA, como os da Oracle Health, permitirão que profissionais de saúde passem menos tempo com computadores e mais tempo com pacientes, além de acelerar o desenvolvimento de medicamentos e a revisão de ensaios clínicos. A Oracle projeta que seu negócio de infraestrutura de nuvem, que representou 27% das receitas no ano fiscal de 2026, será responsável por quase 60% das receitas até o ano fiscal de 2028.
Ainda assim, a transição para se tornar uma potência em IA tem sido custosa. Além dos investimentos, a Oracle realizou cortes de pessoal, com relatos de que 21 mil demissões no ano fiscal de 2026 ajudaram a financiar a corrida bilionária por IA. A empresa também tem enfrentado questionamentos de acionistas e credores sobre sua capacidade de financiar essa expansão. A forma como a Oracle gerenciará sua dívida e os retornos de seus investimentos em IA nos próximos anos será crucial para determinar seu futuro financeiro e sua posição no mercado de tecnologia.
