Robô Budista Brasileiro Gera Música com IA e Interage por Gestos

Um robô social com a aparência de um bodhisattva, capaz de interagir por meio de gestos e gerar música com inteligência artificial, foi desenvolvido por uma equipe de pesquisadores brasileiros, canadenses e sul-coreanos. O projeto, liderado pela Universidade Federal de Lavras (UFLA) no Brasil, em colaboração com a Ontario Tech University (Canadá) e a Hongik University (Coreia do Sul), representa um avanço significativo na aplicação da robótica social em contextos espirituais e culturais.
O protótipo, que reproduz em tamanho real uma estátua budista coreana do século VII considerada um “tesouro nacional”, utiliza impressão 3D de alta resolução para sua construção. Sua principal inovação reside na capacidade de reconhecimento de gestos simbólicos, conhecidos como mudras, e na geração de trilhas sonoras meditativas personalizadas, criadas por IA com base em cânones budistas, adaptando-se ao estado do usuário.
Tecnologia e Interação Avançada
O robô, com 93 centímetros de altura e projetado para permanecer sentado, interage com movimentos sutis de cabeça, tronco e braços, além de reconhecimento de fala e gestos. André de Lima Salgado, professor da UFLA e coordenador da equipe brasileira, explica que o sistema foi concebido para demonstrar como grandes modelos de linguagem podem enriquecer interações significativas entre humanos e máquinas.
A tecnologia empregada segue o modelo “sense-think-act” (perceber-pensar-agir), onde cada comportamento é um nó autônomo, permitindo uma gama ampla de reações e adaptabilidade. Um modelo leve de linguagem de máquina é executado localmente, garantindo eficiência e privacidade dos dados do usuário, sem a necessidade de conexão a servidores externos.
A precisão no reconhecimento dos mudras é crucial, visto que pequenas variações podem alterar seus significados nas tradições budistas e hinduístas. Os resultados iniciais da pesquisa mostraram um alto desempenho na identificação visual de símbolos culturalmente relevantes, atingindo 85,64% de acerto para arquitetura e 85,06% para animais associados ao contexto religioso.
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Propósito e Desdobramentos Futuros
Inicialmente, o projeto foi concebido para enriquecer a experiência de visitantes em museus coreanos, oferecendo uma forma interativa e imersiva de explorar a história, a arte e a espiritualidade budista. A iniciativa visa, principalmente, atrair o público jovem, que muitas vezes enxerga estátuas antigas como meros objetos de exposição silenciosos.
Os pesquisadores vislumbram aplicações futuras da tecnologia em outras áreas, como o apoio emocional a agricultores, um grupo que frequentemente enfrenta altos níveis de estresse e isolamento social. O trabalho foi publicado nos anais da 2025 IEEE International Conference on Collaborative Advances in Software and Computing (Cascon), realizada em Toronto, no Canadá.
Contexto da IA na Religião
A introdução de robôs e inteligência artificial em contextos religiosos tem sido um tema de crescente debate e experimentação, especialmente em países asiáticos como Japão e Coreia do Sul. Outras iniciativas recentes incluem o “Buddharoid”, um robô monge desenvolvido pela Universidade de Kyoto, no Japão, em fevereiro de 2026, treinado em escrituras budistas para oferecer aconselhamento espiritual e mitigar a escassez de monges.
Na Coreia do Sul, o robô humanoide “Gabi” participou de uma cerimônia simbólica de “ordenação” em maio de 2026, no Templo Jogyesa, sede da maior ordem budista do país. Gabi recebeu preceitos adaptados à IA e tem como objetivo atrair as novas gerações e auxiliar na disseminação dos ensinamentos budistas. Esses desenvolvimentos levantam questões sobre a coexistência entre humanos e tecnologia, a autenticidade da experiência espiritual e o papel da inovação na preservação cultural e renovação institucional.
