IA no Brasil: Acabou o ‘FOMO’, Começa a Cobrança por Resultados Concretos

A Inteligência Artificial (IA) no Brasil atravessa um momento de transição significativa. O entusiasmo inicial, muitas vezes impulsionado pelo “Fear Of Missing Out” (FOMO), cede espaço a uma fase de maior maturidade, onde a exigência por resultados práticos e mensuráveis se torna a tônica no ambiente corporativo. Empresas e investidores agora buscam aplicações de IA que demonstrem retorno sobre investimento (ROI) e gerem valor real para o negócio.
Essa mudança reflete um amadurecimento do mercado brasileiro, que, embora lidere a maturidade em IA na América Latina, ainda se posiciona na 13ª colocação entre 16 economias globais avaliadas, segundo um estudo da Salesforce de 2025. O avanço no uso da tecnologia convive com um estágio inicial de monetização, onde 69% dos usuários ainda preferem versões gratuitas das ferramentas.
Fim do FOMO e o Início da Pressão por ROI
A percepção da IA evoluiu de uma camada adicional de eficiência para um fator que influencia decisões estruturais de tecnologia. Se antes a lógica era aplicar modelos generalistas em qualquer contexto, a prática mostrou suas limitações, especialmente em setores sensíveis e regulados como jurídico, saúde e financeiro, onde precisão, contexto e responsabilidade são cruciais.
O debate sobre inteligência artificial nas empresas brasileiras deixou de ser predominantemente tecnológico e passou a ser estratégico, financeiro e regulatório. Após um ciclo inicial de entusiasmo impulsionado pela IA generativa, a pressão por retorno sobre investimento, governança e resultados mensuráveis cresceu.
Investidores, por exemplo, passaram a adotar um olhar mais criterioso, diferenciando soluções com potencial estrutural daquelas que dependem apenas de modelos de terceiros. Em vez de focar em “como usar IA”, a pergunta agora é “onde ela realmente funciona”.
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Desafios Persistentes na Adoção da IA
Apesar da crescente priorização da IA, o Brasil ainda enfrenta desafios significativos que limitam sua plena adoção e a geração de resultados em larga escala:
- Investimento Limitado: Embora a IA seja prioridade para 2026, 77% das empresas brasileiras investem menos de 2% do orçamento na tecnologia. Apenas 3% conseguiram transformar o uso de IA em novas receitas ou vantagem competitiva.
- Escassez de Talentos: A falta de mão de obra qualificada é uma das principais barreiras, citada por 28,3% das empresas. Muitas equipes não possuem as habilidades ideais para implementar ou manter soluções de IA.
- Custos Elevados: Os altos custos de implantação de programas de IA são um entrave para 15,7% das empresas.
- Qualidade e Disponibilidade de Dados: A IA depende de grandes volumes de dados de qualidade, e muitas empresas brasileiras ainda não possuem dados suficientes ou bem estruturados.
- Governança e Estratégia: Há uma maturidade organizacional limitada, com 43,3% das empresas investindo menos de 1% do orçamento em IA e uma parcela relevante sem estruturas dedicadas à gestão dessas iniciativas. Além disso, 74% não possuem práticas estruturadas de gestão de riscos em IA.
- Integração com Sistemas Legados: Desafios de integração com sistemas existentes também figuram entre as principais barreiras.
Oportunidades e Aplicações Estratégicas
Mesmo com os desafios, a IA é vista como uma vantagem competitiva por mais de 70% das organizações, e 58,3% dos executivos já observam ganhos reais de produtividade, especialmente com o uso de soluções de IA generativa. A vantagem brasileira reside em transformar a IA em eficiência e negócio.
IA Vertical e Setores em Destaque
A IA vertical, que se concentra em soluções específicas para determinados setores, ganha força. Setores como saúde, agronegócio e finanças lideram a adoção da inteligência artificial no Brasil, buscando eficiência, redução de custos e personalização de serviços.
Principais Casos de Uso com Retorno Mensurável
- Atendimento e Experiência do Cliente: 59% das empresas utilizam IA para otimizar o atendimento e a experiência do cliente, e 54% em marketing e vendas. Chatbots e IA generativa são empregados para personalização e automação de interações, como no caso da Magazine Luiza, que viu sua influenciadora virtual Lu aumentar a taxa de conversão em 3x no WhatsApp.
- Automação de Processos: A automação de tarefas repetitivas (administrativas, controle de estoque, triagem de currículos) é uma aplicação comum, gerando ganhos de eficiência operacional. O uso de IA para automatizar fluxos repetitivos e integrar dados melhora margem, acelera respostas e aumenta a conversão.
- Análise de Dados e Tomada de Decisão: A IA apoia a análise de vendas, comportamento de clientes, previsões de demanda e identificação de tendências de mercado.
- Segurança da Informação: Aplicações de detecção de ameaças e fraudes crescem no ambiente corporativo.
- Cobrança Inteligente: Empresas estão utilizando IA e análise de dados para prever riscos de inadimplência, identificar o melhor momento e canal para contato, e personalizar mensagens de cobrança, aumentando a taxa de conversão em acordos.
Desdobramentos e Perspectivas para 2026
O governo brasileiro, por meio da Finep e do BNDES, destinou R$ 205 milhões para um novo fundo de investimento focado em startups de IA, alinhado ao Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA). O objetivo é alavancar empresas onde a IA é o centro do negócio, não apenas uma ferramenta complementar.
Uma tendência emergente no mercado de software de IA é a mudança dos modelos de precificação de assinaturas para cobrança por resultado ou por unidade de trabalho entregue. Empresas como HubSpot e Atlassian já adotam essa estratégia, impulsionadas pela ascensão dos agentes de IA, sistemas capazes de executar tarefas completas sem intervenção humana. Esses agentes de IA devem crescer 327% nas empresas em dois anos, com potencial médio de 30% de ganho de produtividade.
A infraestrutura de data centers no Brasil também está em um superciclo de investimentos, com BRL 500 bilhões previstos até 2030, impulsionados pela demanda da IA. No entanto, desafios na transmissão de energia podem ser um gargalo.
Para as empresas que buscam sucesso com IA, elementos como dados proprietários, integração no fluxo de trabalho, qualidade superior em contextos específicos, eficiência econômica e acesso privilegiado à distribuição tendem a definir uma IA defensável e geradora de valor. O foco agora é em como reorganizar a operação para trabalhar com a IA de forma consistente, segura e sustentável, transformando experimentação em impacto real para o negócio.
