IA sem Mediação Prejudica Memória e Crítica de Adolescentes, Alerta Estudo

Um estudo recente, publicado no periódico “Journal Media Critiques” em outubro de 2025, revelou que o uso não mediado de inteligência artificial (IA) por adolescentes pode prejudicar significativamente sua memória e autonomia crítica. A pesquisa, realizada com 582 alunos do ensino médio em Guaratinguetá, São Paulo, aponta para uma preocupante tendência de “terceirização cognitiva” e a necessidade urgente de programas de letramento digital crítico nas escolas.
Impacto Direto na Cognição e Autonomia Intelectual
Os resultados do estudo são alarmantes: uma parcela considerável dos usuários frequentes de IA percebe um impacto negativo em suas habilidades cognitivas. Cerca de 58,1% dos adolescentes relataram maior dificuldade em resolver problemas de forma autônoma, enquanto 62,4% sentiram uma diminuição na capacidade de memorização. Os principais usos da IA entre os estudantes são a obtenção de respostas diretas (39%) e a geração de textos (25,9%), o que os autores classificam como uma delegação excessiva de processos mentais à tecnologia.
A pesquisa destaca que, embora a IA seja eficiente para tarefas imediatas, sua utilização sem orientação pedagógica representa um risco ao desenvolvimento de competências fundamentais e à autonomia intelectual dos jovens. A maioria dos alunos (70%) utiliza IA semanal ou diariamente, mas 67,9% nunca recebeu qualquer tipo de instrução sobre o uso crítico e ético dessas ferramentas.
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A Preocupante “Terceirização Cognitiva”
O conceito de “terceirização cognitiva” surge como um ponto central nas discussões sobre o uso da IA. Especialistas alertam que, ao delegar tarefas intelectuais à inteligência artificial, os adolescentes podem se tornar mais passivos no processo de aprendizagem. O cérebro precisa ser constantemente estimulado para se desenvolver, e a dependência de conteúdos prontos pode levar a um aprendizado superficial, sem a interação necessária para a construção de raciocínios próprios.
Eucídio Pimenta Arruda, professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ressalta que o aluno deve compreender que copiar informações geradas pela IA não equivale a aprender. Essa preocupação é corroborada por uma pesquisa do MIT Media Lab, que em julho de 2025 indicou que o uso intensivo de ferramentas de IA generativa pode comprometer a capacidade de memorização, o engajamento cognitivo e até mesmo o sentimento de autoria dos textos produzidos pelos estudantes.
Visão Internacional e Outros Riscos
Os achados do estudo brasileiro ecoam preocupações globais. Uma pesquisa da Oxford University Press, realizada em outubro de 2025 com 2.000 estudantes britânicos entre 13 e 18 anos, revelou que 8 em cada 10 adolescentes usam IA em trabalhos escolares. Embora alguns relatem que a tecnologia os ajuda a “pensar mais rápido”, uma parcela significativa (60%) afirma que a IA prejudica outras habilidades, 25% acham que o aprendizado se tornou “fácil demais” e 10% notam uma redução na criatividade e no pensamento crítico. A pesquisa de Oxford introduziu o termo “cognição sintética” para descrever esse novo tipo de pensamento que emerge na “geração nativa da IA”.
Dependência e Perda de Habilidades
A dependência da IA é um risco crescente. Um adolescente de 13 anos entrevistado pela pesquisa de Oxford chegou a declarar que se tornou “dependente” da ferramenta. Essa dependência pode levar à perda de habilidades essenciais, como a capacidade de pausar, questionar e pensar de forma independente.
Saúde Mental e Solidão
Além dos impactos cognitivos, o uso não mediado da IA também levanta preocupações sobre a saúde mental dos adolescentes. O Hospital Pequeno Príncipe, em setembro de 2025, alertou para os riscos da terapia com IA, que, apesar de oferecer respostas rápidas e disponibilidade 24 horas, pode aumentar a sensação de solidão, pois não substitui as relações humanas autênticas. O uso de chatbots como interlocutores únicos, como no caso de um adolescente americano que utilizava a ferramenta para desabafar sobre crises de ansiedade, pode reforçar pensamentos negativos e comprometer o desenvolvimento psíquico em uma fase crucial.
Desinformação e Ética
Outro ponto de atenção é a confiabilidade das informações geradas por IA. Ferramentas, mesmo avançadas, podem produzir conteúdos imprecisos, incorretos ou enviesados. A falta de orientação sobre como checar esses dados e discernir entre fatos e fake news é uma preocupação dos próprios estudantes. A Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos abriu uma investigação sobre “companheiros de IA” voltados para adolescentes, preocupada com a simulação de intimidade e a manipulação de mentes vulneráveis.
Desdobramentos e Recomendações
Diante desse cenário, a implementação de programas de letramento digital crítico nas escolas é considerada urgente. O objetivo é transformar a IA em uma ferramenta de potencialização, e não de substituição do esforço cognitivo. Professores e especialistas em educação enfatizam a necessidade de que famílias e instituições de ensino estabeleçam regras claras sobre o uso da IA, expondo seus riscos e consequências.
Uma pesquisa do NIC.br, divulgada em novembro de 2025, apontou que, embora o uso da inteligência artificial pelos estudantes do Ensino Médio seja intenso e indiscriminado, a mediação não está ocorrendo na mesma velocidade. Os alunos expressam preocupação com a dependência, o aprendizado superficial e o medo de “desaprender”. A capacitação de professores e alunos para o uso eficaz e ético da tecnologia é crucial para democratizar o aprendizado e garantir que a IA seja uma aliada no desenvolvimento acadêmico e social dos jovens.
